sexta-feira, 18 de junho de 2010

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Tigrala

Ouvem-se as melodias de “Tigrala” como canções da evolução. Nelas tudo se faz de madeira, metal, pele e tripas, tudo é telúrico e simultaneamente folclórico. Possuem também um impulso celebrativo profundamente honorífico que por vezes poderá aparentar sucumbir perante o peso da vida. Mas logo lembram o amanhã. Talvez por imitarem os elementos – escorregadias, empoeiradas, ardentes, vaporosas – toquem no cordão da esperança ou, por outro lado, talvez contagie darem mostras que querem viver para sempre. O que se afigura absurdo é dizer-se que têm apenas um ano. O inacreditável – de virem de décadas, séculos, milénios de transes e crenças – mostra-se mais credível sempre que as ouvimos. O impossível – a metafísica, o sobrenatural – sustenta-as num abraço ficcional que dispensa a fé e que, aqui, se poderá bem ficar pelo gozo ritualista. Evocá-lo significará suspender a acção num gesto onírico. Outro caminho.

Ouve-se “Tigrala” como se liam antes os livros de aventuras: suspensos num estado de deslumbramento e envolvência com aquilo que apenas simula a realidade mas que, inevitavelmente, em muito a transcende com as suas promessas ilimitadas de exotismo, risco e camaradagem. E evoca a acção tantas fantasias – as dos lugares distantes, das paixões eternas, da infância revisitada, da comunhão com a terra e com o mar – que a maior será mesmo aquela que nos faz acreditar ser esta música de um sítio específico quando, no fundo, sonha em ser de todos. Por vezes esconde-se esse desejo nos ensolarados círculos perfeitos desenhados pelo vibrafone, noutras adivinha-se a aspiração nos trilhos e casas que constroem os blocos de acordes saídos da guitarra, e há alturas em que, para o percebermos, basta seguirmos as notas soltas da tambura que, como lianas, trepam por solo e céu até, gotejantes, regressarem das nuvens para tudo cobrir. Porque sabem ter de proteger este terreno livre em que cantam. Por isso, enquanto se espantam maus espíritos, abre o disco com uma oração.

“Tigrala” não consegue estar quieto. Custa seguir tanto movimento, imaginar tanta agitação. Há alturas em que é como se nos rodeasse um enxame de abelhas. Noutras é só uma dança. O mais esquemático nos seus temas é sempre convulso, com ritmos sobre ritmos, ziguezagues harmónicos, saltos no tempo. E uma constante ameaça de romaria. Mas não há povo para a seguir. Há Norberto, Guilherme e Ian Carlo com cabeças cheia de discos. Há histórias de Steve Reich a aprender tambor no Gana, de Hermeto Pascoal a tocar pífaro para os passarinhos em Alagoas ou de Don Cherry a espalhar poesia pela Suécia, de instrumentistas magos, de mestres e discípulos. Há ainda, claro, tribos perdidas, templos envolvidos por mata, estradas sem fim, signos e símbolos, muitas viagens. Mas mesmo com tanto rodopio, com um frenesi tropical a soltar-se das cordas e tambores, procura-se, acima de tudo, a paz. Por isso em tantos momentos ao longos destes 40 minutos se insinua estar a começar algo de novo a partir de materiais exaustos. Se tivéssemos também de o fazer e voltar atrás, diríamos que ouvindo “Tigrala”, no fundo, se ouve uma história de devoção por algo tão simples quanto a amizade.

Porque, ao fim e ao cabo, “Tigrala” não é bem deste mundo. Mas mereciam todos os que cá andam ouvi-lo para crer.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Tiago Guillul "V" (Digipak)



Com a primeira edição (LP+CD) de “V” à beira de esgotar e em vias de – em apenas 3 semanas – se tornar peça de colecção, eis chegada a segunda edição em CD Digipak, formato estreado na jewelcaseiana FlorCaveira.

"Um dos melhores discos do pop rock português do pós-milénio" Nuno Galopim, Sound&Vision
"Ele não falha: caldo oitentista, suficiente África, ferrugem e impurezas várias para dar origem a óptimas canções" João Lisboa, Expresso
Ligeireza pop, kuduro estilizado, abraço de tropicalismo, garagem" Mário Lopes, Público
"O disco mais coeso e coerente que o pastor punk já gravou" Luís Rodrigues, Time Out Lisboa
"Oásis mediterrânico-tropical com vento quente de áfrica" Luís Guerra, Blitz
"Candidato a álbum do ano em Portugal" Luís Reis Pires, Diário Económico
"É impossível pensar em V noutra época que não a do agora" João Moço, Diário de Notícias

terça-feira, 15 de junho de 2010

Bill Carrothers "Joy Spring"

Todos sabem do nosso fascínio por Bill Carrothers. E mais uma vez, com esta homenagem a Clifford Brown, se comprova a sua subtileza a lidar com os maleáveis materiais da memória. O disco está já nas lojas. Ouçam-no:
Junior’s Arrival
Joy Spring
Jacqui
Gerkin for Perkin
Delilah
Gertrude’s Bounce
Jordu
Daahoud
Time
Powell’s Prances
Tiny Capers
I Remember Clifford

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Contact "Five On One"

Marc Copland, Dave Liebman, John Abercrombie, Drew Gress e Billy Hart. Nomes cheios de histórias e que evocam instantes preciosos na memória do jazz. Juntaram-se como se não houvesse presente. Como se fossem um, tornando-se modelares para aquela afamada osmose do género, hoje tão rara quanto ar puro. Ouçam-nos:
Sendup
Like It Never Was
Childmoon Smile
Four On One
Lost Horizon
Retractable Cell
My Refrain
Lullaby for Imke
You and the Night and the Music

sábado, 12 de junho de 2010

Feromona no i

quinta-feira, 10 de junho de 2010

quarta-feira, 9 de junho de 2010

segunda-feira, 7 de junho de 2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Tigrala, há onze meses

No Festival de Curtas de Vila do Conde, os Tigrala acompanharam "Tabu", o filme de Murnau de 1931. Eis um excerto:

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Tiago Guillul no JORNAL DE LETRAS

Ignorar a Ficha Técnica.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Rodrigo Amado no EXPRESSO

Com "Abstract Truth" e "Motion" nas lojas, e com concerto na ZDB sexta que vem, Rui Tentúgal faz um ponto de situação: (cliquem para aumentar)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Norberto Lobo Ao Vivo (arquivo)

Em boa hora nos relembrou o Vasco Alves que, há quase um ano, no londrino Cafe OTO, tinha gravado o concerto do Norberto. É o deslumbramento do costume:

Norberto Lobo from Vasco Alves on Vimeo.

Serge Gainsbourg "Poet and Provocateur"

Vídeo para 'Le Poinçonneur des Lilas", um dos temas desta antologia que inclui o álbum de estreia de Gainsbourg, EPs de BSOs de 1958 e o raríssimo EP "Juliette Greco Chante Gainsbourg".

Joyce e João Donato "Aquarius"


Corram a apanhá-lo

Tiago Guillul na BLITZ

Crítica a "V".

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Tó Trips na ZDB

Em noite de Rock in Rio... nada como ir à ZDB assistir à estreia absoluta do duo Tó Trips e Luís Vicente. E não se imagina que dele não desponte o mais intenso perfume a fronteira. Porque se o cenário começa por "Guitarra 66", atenção que se anunciam inesperadas mudanças de paisagem.

Richard Galliano na TIME OUT


Feromona no PÚBLICO


Feromona "Desoliúde"

Isto podia vir crivadinho de citações do Heidegger sobre a autenticidade e inautenticidade do dasein. Podia vir e não vem. Reparem na subtileza do “e”... Qualquer selvagem tosco escreveria “mas” – e lá era mais um a cair de borco no lameiro do que não é. Raio de mania, a dos pares de opostos – quando não há opostos. Nem pares. E isto agora podia vir crivadinho de citações do Lacan, aspas, itálicos e notas de rodapé. Podia vir e não vem.

Podia vir – e para quê? Alicerces de uma esperteza estrangeira para os prédios de Alfama, com barriga e sem? Aqui, aqui ainda cresce o cabelo à santinha de Arcozelo. Argumente-se, pois, sem muletas; argumente-se miraculado: há muito manco que gosta de jogar à bola. O que vem, o que aí vem, não traz muletas. Traz uma mão-cheia de rebuçados e uma máquina de sulfatar com estricnina. E não manqueja.

O que vem, o que vem aí, são formas físicas visíveis por debaixo da roupa – e sem interiores, com sombras húmidas e despudoradas. Pouca vergonha, felizmente. Quem já ouviu, diz que é uma espécie de festa debochada no Posto de Comando das Forças Armadas – ou três indivíduos de gabardine nas cercanias de um parque infantil. Ou de um centro de dia. E isto é bom. É justo e é bom.

O que aí vem, pois que vem, é Feromona. Da boa. Caseira! Com cheiro a corpo, ao cheiro que o corpo deixa aqui e ali, à procura. Estranhamente, ou não, cheira também a uma outra qualquer coisa intemporal e recorrente, como lanches de pão com manteiga e leite com chocolate. Resulta. Já os antigos diziam que era a feromona que trazia isto tudo entregue aos bichos. E agora a Feromona é a seta grande e bem desenhada que, num moderno powerpoint, nos mostra a parede em que esbarramos. Os bichos riem, nós esfacelamos a testa e juramos pelas alminhas que sim, que vemos o sangue a pingar-nos do sobrolho, que está ali a parede e batemos nela, por destino ou desforço. Manhosa como só ela, a Feromona, ao segundo clique, é também a segunda seta, grande e bem desenhada, que aponta para a legenda “É cartão, ó estúpido!”. Nem tão pouco tabique; é mesmo só cartão. É brincar aos filmes de isto ser como nos filmes.

O que vem aí, e vem mesmo, são três fulanos a levantar as saias à verdade e a fazer canções que contam o que lá está. Depois de “Uma Vida a Direito”, a Feromona como que pegou n’O Verbo Escuro, de Pascoaes, (sim, este pretende ser o texto mais pretensioso alguma vez escrito sobre um disco) e compenetrou-se de que “A natureza abomina a linha recta.” Quem já ouviu, diz que é como uma maçã Bravo de Esmolfe, só que de enxerto novo; tem sumo e arranha a garganta – ou um UMM kitado, desabrido Vasco da Gama afora. E isto é bom. É justo e é bom.

É que o que vem, que está mesmo aí a chegar, é o segundo álbum da Feromona, amadurecido em cascos de calvário - voluntarista, claro; dois anos a tocar o bem sem olhar a quem – e marcha que é uma beleza. Quem já ouviu diz que é mesmo assim: o que aí vem é um disco que nos arranca aquele meio-riso nervoso de quem percebe ‘qu’isto é muita bom’ quando já era essa a expectativa. Não há surpresa maior que a de confirmarmos que até cidadãos ordinários como vocês, podem, esparsamente, ter razão. Ela quer, o homem sua, a Feromona nasce – e é uma sorte do caraças que ela venha engarrafada em rodelas de plástico, a preço módico, que se podem ouvir naqueles lasers pequeninos que não dão para operações à próstata. E vem aí. Chega antes do TGV.

Paulo Lopes Graça

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Tó Trips no Q

Amanhã, pelas 21h45, o Tó estará à conversa no Mapa, do canal Q

B Fachada na SÁBADO.PT

B Fachada pelo Algarve

Lagos e Portimão recebem B Fachada. Hoje, no Centro Cultural de Lagos, pelas 21h30. Amanhã no Teatro Municipal de Portimão, pelas 22h00.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Tiago Guillul no i

Andre Rito passou um dia com Tiago Guillul e conta como foi:

quinta-feira, 13 de maio de 2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Tiago Guillul "V"


Durante anos de relativa invisibilidade mediática, Tiago Guillul foi para si criando um espaço tão singular que às tantas parecia ser impossível situá-lo no mapa. Não que isso se desse apenas pela invulgaridade da sua proposta ou pelo radicalismo da sua condição. Era antes o caso de pouca gente saber o que fazer com um pregador tornado músico, tornado blogger, skater, cronista e pai de família numerosa, capaz de, subitamente, colocar em sobressalto visões mais simplistas do mundo e em simultâneo assumir o menos complexo dos rótulos estéticos: o de panque-roquer bem temperado pela evidência de não podermos festejar como se estivéssemos em 1979.

Hoje, a tão pouca distância, é claro que, pelo menos na especialidade, se desmistificou já a circunstância do seu articulado baptismo artístico. E Guillul – conferir as críticas ao anterior “IV” – viu-se celebrado e aceleradamente jubilado, incluído nas mais diversas agendas, uma rede social à espera de acontecer, e antídoto para o adormecimento da música popular cantada em português.

Agora, longe da unanimidade e ainda mais do consenso – não que a tal aspire –, vê-se chegada a hora de um primeiro balanço. E “V”, o seu quinto álbum, por mais que continue a operar num tempo estritamente pessoal, olha suficientemente para trás para fazer disparar a memória de quem na altura certa lhe ousou tomar o pulso. E essa será a menos calculada das novidades que nos traz. Tudo porque, de repente, faltou diversão à música feita em Portugal – que seja Guillul a lembrá-lo prova que continua a escrever direito por linhas tortas (e a produzir mais one-liners por minuto do que o gabinete das Produções Fictícias). Middle-class kids just wanna have fun too.
Com um elenco tão inesperado quanto previsível – incluindo Rui Reininho, Samuel Úria, Quim Albergaria e membros d’Os Pontos Negros – mergulha na mais fabricada das nostalgias, conciliando recordações de férias de Verão (´Praia Verde’), antigos Campeonatos do Mundo de Futebol (no vídeo para ‘São Sete Voltas Para a Muralha Cair’), êxtase de roque de garagem (‘Barreiro Rock City’), hipnose devocional ao jeito do Antigo Testamento (‘Sacudindo o Pó dos meus Pés’), embirração política (‘Canção para o Doutor Soares’), um cisma religioso (‘Roma e Avinhão’) e um cisma familiar (‘Canção para a Maria Não Furar as Orelhas’), fixando-os genericamente num momento histórico que pode ou não ter origem no instante em que os Aerosmith entraram pela parede do estúdio dos Run-DMC adentro.

Mas esta investida pelos anos 80 – e é disso que em parte se trata – não é feita por um imberbe nascido em 1992 e agora chegado à maioridade. Ou seja, isto não é uma guerra de estilo mas antes a sublimação de uma biografia: pois, aqui, Guillul mais depressa diz Su-Subbuteo do que “Suss-Sussudio” e com mais dedicação revê a RTP do que a MTV. É o disco de quem do Hip Hop guardou os ténis e do Metal as revistas. É para suar a lycra.

Ligeiramente a borrifar-se para o esperado, mas ainda e sempre resistindo ao invasor, “V” poderá bem vir a ser o mais descomprometido e ligeiro álbum a chegar-nos das mãos daquele que, em princípio, havia surgido para nos garantir tudo menos conforto, na sua batalha final pela evangelização. Nem que fosse só por isso, bem-haja. Problemas já temos que cheguem.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

B Fachada n'A ÚLTIMA CEIA

B Fachada cantou 'Os Discos do Sérgio Godinho', uma das novas canções do EP "Há Festa na Moradia", a sair em finais de Junho.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

terça-feira, 20 de abril de 2010

Gala Drop

Em LP. E na Quinta, com Sonic Youth, no Coliseu.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ricardo, Norberto e Tó

No seu site, Rui Eduardo Paes escreveu sobre as nossas edições.
Alguns destaques:
“O mesmo amor que Carlos Paredes tinha pelas peças para cravo de Carlos Seixas transparece no primeiro CD de "Luminismo", mas é inútil procurarmos outros padrões alusivos: simplesmente, não existem. Ricardo Rocha está a construir algo do quase zero”
“O que lhe ouvimos na guitarra é deslumbrante, sendo Norberto Lobo capaz, por exemplo, de desenvolver em paralelo três linhas discursivas, sem sobregravações (só num tema é acompanhado por Luís Martins), mas o que mais agrada é o seu virtuosismo estar ao serviço da música e não de manifestações egotistas. Em relação ao anterior "Mudar de Bina", este é claramente um disco de consagração pessoal e de solidificação de um projecto”
“Tó Trips é outro caso sério da presente música guitarrística nacional. Intervalo acústico na habitual produção do dedilhador que já pertenceu a grupos do rock alternativo como Santa Maria Gasolina em Teu Ventre e Lulu Blind, fica especialmente evidenciado o seu gosto pela matriz "bluesy", surpreendendo-nos um intimismo que lhe desconhecíamos”