quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Aquaparque "Pintura Moderna" a 18 de Março


O novo álbum dos Aquaparque, “Pintura Moderna”, sai dia 18 de Março e terá, na mesma noite, concerto de apresentação em Lisboa - no sótão da loja Kolovrat 79 (Rua D. Pedro V, 79), pelas 21h30, com entradas a 7 Euros.

“Os Aquaparque têm origem em Santo Tirso, norte de Portugal. Pedro Magina (voz, casio tonebank, yamaha ds55, harmónica, percussão) e André Abel (voz, programações, guitarra) conheceram-se na primária no final da década de 80. Magina, com as suas botas ortopédicas, e André, com as suas camisas apertadas até ao pescoço, começaram a escrever música em conjunto pela altura que a “Antologia” dos Beatles passou na RTP2, já os dois andavam no ciclo. Magina era então um motivado atleta federado nos juvenis de futebol no Desportivo das Aves e André uma esquecível presença em peças de teatro amador. Tiveram as suas bandas com incautos adicionais, com estéticas comprometidas no seu diletantismo adolescente, de imersão metal gótico à la Lacrimosa dos parcos de técnica, à primeira vida dos dAnCE DAMage, inspirados pela recuperação do pós-punk do início do novo século. Ensaiaram uma vida inteira na sua amada e desdenhada cidade do Porto em espaços mitificados nos milieus das bandas emergentes do período, como o Poltergeist e o ‘Abílio’, no Bonfim, até salas DIY na Zona Industrial ou no Stop, e tocaram pelo país fora, de festivais ao ar livre dentro de muralhas em Miranda do Douro a garagens tornadas bares de alterne teen em Vieira do Minho. O pico deve ter sido no nunca-mais-será-como-antes Swing, no Porto. Precisaram deste tempo todo para escrever “Pintura Moderna” em algumas semanas.”.

Aquaparque

Numa certa perspectiva, “Pintura Moderna” funciona como uma terapia de estímulos sensoriais. Contém o balanço certo entre familiaridade e estranheza, seduz e desorienta, e traduz parte da cultura popular como um labirinto de espelhos. Tem tanto de aleatoriamente objectivo quanto de rigorosamente subjectivo. E, naquilo que de mais efémero simula, parece movido por um motor em contínua geração de sons saídos da pop de videoclip. Daquela que, formalmente instantânea, ganhou permanência na visão de certos produtores, na opção por determinados arranjos e, naturalmente, numa consistência rítmica, riqueza melódica e firmeza estética de alcance estrutural. Conduzem-nos até esta conclusão os seus momentos que, especulando, poderiam ter nascido em 80s, na alta costura sonora e combinação de estilo e substância de Stock, Aitken & Waterman, Trevor Horn, Jellybean Benitez, Bill Laswell ou Brian Eno atrás da mesa de mistura. Além daqueles nomes de cá que por altura do “É Isso Aí” (Aquaboogie, 2009), o seu primeiro disco, vieram à baila. Claro que concentrarmo-nos nisto facilita a compreensão mas encurta as vistas. Nenhuma destas canções começa e acaba num qualquer tráfico de influências. Quanto muito – nem tendo, de todo, de reconhecê-las conscientemente – tratam-nas de forma elíptica e reproduzem-lhes os códigos trocando-lhes a lógica. Porque não falaria “Pintura Moderna” a língua dos nossos dias se não expandisse violentamente as premissas tipológicas do qualquer género. Inscrevendo-se de forma exemplar na tradição dos que nesse contexto alteram paradigmas, concilia, ao nível dos processos, verosimilhança material com distanciamento da realidade, e manobra estrategicamente num jogo de sedução com a principal característica da pop de hoje: a simultânea afirmação e negação da própria vida de quem a ouve (e, quem sabe, da de quem a produz). E essa oscilação num mesmo espaço entre o eminentemente reconhecível e o profundamente abstracto – para que contribuirá também uma lírica idiomaticamente existencialista – produz apenas mais-valia estética quando inteiramente assumida. E é isso que fazem agora os Aquaparque. Situá-los numa produção nacional ainda mais fragmentada do que o que se supõe só interessa se for para compreendê-los tão confortavelmente à margem de tudo quanto no meio de todos. “Pintura Moderna” desentrincheira todas as ‘cenas’.

Vídeo para o tema de apresentação 'Para Além do Bronze'

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A oferta de Dia de São Valentim de Tiago Lacrau

"São Valentim há-de valer pouco no calendário de um protestante mas como sou todo amor aproveito o dia para vos deixar uma oferta. Em Outubro entusiasmei-me a ouvir o "South Of Heaven" dos Slayer (um dos discos que eles menos gostam) e deu-me vontade de improvisar manhosamente sobre o talento deles. Tendo em conta que a banda sempre namorou um satanismo soft (mais feito de testosterona adolescente que anti-teologia séria) voltei a uma das velhas questões culturais cristãs do passado Século XX: why should the devil have all the good music? Assim sendo improvisei umas rimas semi-proselitistas sobre excertos das dez canções do disco. Tudo isto na minha confiável precariedade de meios técnicos. O resultado é este "Inverno Desinspirado do Rapaz do Sul do Céu (Uma pilhagem sonora em baixa-fidelidade com propósitos evangelísticos)" - podem sacá-lo aqui. Pedi ajuda ao Silas Ferreira que claramente me fez a capa do ano (aguardem pelas t-shirts em breve) e rematou os pormenores gráficos. É uma edição completamente artesanal (welcome back fotocópias a preto e branco, CD-Rs baratos, folhas dobradas e discos numerados pelo autor) limitada a 333 exemplares (com metade do número da besta conseguimos mais e melhor).
Por último deixo-vos também um teledisco que concebi e o Ben Monteiro concretizou. Mash-up policy, naturalmente. Tentámos manter na imagem o trash-metal-pop das cantigas, daí as angústias teológicas, os rodopios cinéticos, a exuberância oitentista brasileira (quero ouvir esse aplauso para a Cláudia Magno!) e a referência ao 50 Cent (porque no fim de contas isto é puro hip-hop).
Como dizem os namorados: amo-vos muito!"

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

B Fachada e Lula Pena ao longe


As traduções instantâneas dão resultados hilariantes e frequentemente absurdos, mas em ambos os casos nota-se pensamento original e uma genuína comoção. Para os curiosos, ficam então perspectivas vindas da Croácia (para B Fachada) e Áustria (para Lula Pena). A segunda é da autoria de Veit Stauffer, um dos responsáveis pela RecRec, que editou maravilhosos discos (de Fred Frith aos japoneses After Dinner) na década de 80.

Pepper Adams no PÚBLICO

Em crítica conjunta com o imortal "Waltz for Debby", de Bill Evans.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Lula Pena no Auditório Carlos Paredes

Entrada livre mediante reserva para o 217 123 000.

Melhores do Ano no PÚBLICO


“Troubadour”, de Lula Pena, está incluído nas listas de Vítor Belanciano e Mário Lopes.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

2010 (Listas pessoais)

Dizia Marcelo Camelo numa entrevista recente que a música era "1% do [seu] campo de interesse". E embora a possamos invejar, é certo que ninguém esperará semelhante declaração daqui proferida. O que não quer dizer que o nosso ano se esgote no acompanhamento dos seus fenómenos. Mas porque será pelo nosso papel de observadores privilegiados que farão sentido, eis as listas de discos extrínsecos à nossa actividade profissional que em 2010 mais nos marcaram:


Ali Farka Touré & Toumani Diabaté “Ali and Toumani” (World Circuit)
Atomic “Theather Tilters Vol. 1” (Jazzland)
Best Coast “Crazy For You” (Mexican Summer)
Bola Johnson “Man No Die” (Vampisoul)
Bonnie 'Prince' Billy & The Cairo Gang “The Wonder Show of the World” (Drag City)
D.O. Misiani and Shirati Jazz “The King of History: Classic 1970s Benga Beats From Kenya” (Sterns)
Emeralds “Does it Look Like I’m Here?” (Mego)
Issa Juma and Super Wanyika Stars “World Defeats the Grandfathers: Swinging Swahili Rumba 1982-1986” (Sterns)
Jean-Marc Foltz, Matt Turner & Bill Carrothers “To the Moon” (Ayler)
Jeb Bishop Trio “2009” (Better Animal)
Jim O’Rourke “All Kinds of People ~ Love Burt Bacharach” (AWDR/LR2)
Jon Irabagon “Foxy” (Hot Cup)
Julian Lynch “Mare” (Old English Spelling Bee)
Konono Nº1 “Assume Crash Position – Congotronics 4” (Crammed)
Lobi Traoré “Rainy Season Blues” (Glitterhouse)
M. Takara 3 “Sobre Todas e Qualquer Coisa” (Desmonta)
Marcelo Jeneci “Feito Pra Acabar” (Slap)
Nate Wooley & Paul Lytton “Creak Above 33” (Psi)
Oneohtrix Point Never “Returnal” (Mego)
Psychedelic Aliens “Psycho African Beat” (Academy LPs)
Ray Anderson-Marty Ehrlich Quartet “Hear You Say” (Intuition)
Rodrigo Amado, Taylor Ho Bynum, John Hébert & Gerald Cleaver “Searching for Adam” (Not Two)
Schlippenbach Trio “Bauhaus Dessau” (Intakt)
Sun Araw “On Patrol” (Not Not Fun)
Tabu Ley Rochereau “The Voice of Lightness Vol. 2: Congo Classics 1977-1993” (Sterns)
Tomas Fujiwara & Taylor Ho Bynum “Stepwise” (Not Two)
Wadada Leo Smith & Ed Blackwell “The Blue Mountain’s Sun Drummer” (Kabell)
Wilson das Neves “Pra Gente Fazer Mais Um Samba” (Totolo)
Vários “Lagos Disco Inferno” (Academy LPs)
Vários “To Scratch Your Heart: Early Recordings from Istanbul” (Honest Jon’s)
(João Santos)

Ariel Pink's Haunted Graffiti “Before Today” (4AD)
Beach House “Teen Dream” (Sub Pop)
Best Coast “Crazy For You” (Mexican Summer)
Bonnie Prince Billy & The Cairo Gang “The Wonder Show Of The World” (Drag City)
Doug Paisley “Constant Companion” (No Quarter)
Geri Allen “Flying Toward The Sound” (Motéma)
Jim O’Rourke “All Kinds of People ~ Love Burt Bacharach” (AWDR/LR2)
Joanna Newsom “Have One on Me” (Drag City)
Konono Nº1 “Assume Crash Position – Congotronics 4” (Crammed)
Marilyn Crispell & David Rothenberg “One Dark Night I Left My Silent House” (ECM)
Richard Hawley “True Love’s Gutter” (Mute)
Vijay Iver “Solo” (Act)
+
Bruce Springsteen “The Promise: The Darkness on the Edge of Town Story” (Columbia)
Bob Dylan “The Original Mono Recordings” (Sony)
(Rui Ribeiral)

Curren$y “Pilot Talk” (DD172)
The Roots “How I Got Over” (Def Jam)
Erykah Badu “New Amerykah Part Two (Return of the Ankh)” (Motown)
Kanye West “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” (Roc-A-Fella)
The Vandermark 5 Special Edition “The Horse Jumps & The Ship Is Gone” (Not Two)
Big Boi “Sir Lucious Left Foot the Son of Chico Dusty” (Purple Ribbon)
Flying Lotus “Cosmogramma” (Warp)
Ariel Pink Haunted Graffiti “Before Today” (4AD)
Jason Moran “Ten” (Blue Note)
Aloe Blacc “Good Things” (Stones Throw)
Emeralds “Does it Look Like I’m Here?” (Mego)
Sade “Soldier of Love” (Sony)
Gonjasufi “A Sufi and a Killer” (Warp)
Janelle Monáe “The ArchAndroid” (Bad Boy)
Kid Cudi “Man on the Moon II: The Legend of Mr. Rager” (Motown)
Nas & Damian Marley “Distant Relatives” (Def Jam)
Jim O’Rourke “All Kinds of People ~ Love Burt Bacharach” (AWDR/LR2)
Best Coast “Crazy For You” (Mexican Summer)
Sleight Bells “Treats” (Mom + Pop)
Rick Ross “Teflon Don” (Def Jam)
Mark Ronson & The Business INTL “Record Collection” (RCA)
Ingebrigt Håker Flaten/Joe McPhee “Blue Chicago Blues” (Not Two)
Rah Digga “Classic” (Raw Koncept)
Curren$y “Pilot Talk 2” (DD172)
Freeway and Jake One “The Stimulus Package” (Rhymesayers)
(Sérgio Gonçalves)

B Fachada na TIME OUT LISBOA (III)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

B Fachada na VISÃO

Melhores do Ano na TIME OUT

Ai a gralha no "Troubadour"!

Nuno Campos na TIME OUT

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

B Fachada no PÚBLICO

Sublinhamo-lo certamente invadidos pelo espírito natalício, mas a verdade é que os acasos da paginação no Ípsilon determinaram que fosse hoje publicada uma página em que só aparecem - dos que escrevem àqueles sobre os quais se escreve - amigos nossos (click para aumentar).

B Fachada na DIF

Melhores do Ano no SAPO

O Sapo elege os melhores discos nacionais de 2010 e Lula Pena está na lista.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

B Fachada na TIME OUT

Os americanos chamar-lhe-iam um "embarrassment of riches". Por cá é o que acontece sempre que se dá demasiado de uma coisa boa.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

B Fachada "B Fachada é Pra Meninos" (Sobre a Capa)

As ilustrações de "B Fachada é Pra Meninos" são de José Louro. Umas palavras sobre o autor:
Nasceu em Lisboa em 1964. Licenciado em Design de Equipamento, IADE, 1992. Mestre em Desenho, Faculdade de Belas Artes de Lisboa, 2005. Professor desde 1989. Participa em exposições, conferências, workshops e encontros sob o tema do "Diário Gráfico". Colaborador do jornal "i" como repórter gráfico. Correspondente do site Urban Sketchers. Participa nos livros "Diários de viagens. Desenhos do quotidiano", Quimera, 2008 e "Diário de viagem em Lisboa. Sete colinas, sete desenhadores", Quimera, 2010. É o autor do blogue A Janela de Alberti.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

B Fachada "B Fachada é Pra Meninos" (Texto de Apresentação)

Em certa medida, 2010 foi o ano do grupo em que toca B Fachada, os Diabo na Cruz. Num surpreendente somatório de 40 concertos calcorrearam o país queimando fitas, lançando foguetes, recebendo caloiros e emigrantes, levando alegria a muitas praças, encharcando auditórios, ultrapassando em larga escala qualquer rider artístico que à sua frente se atravessasse e, como no IST, incentivando ao motim da praxe. Seria o suficiente para imaginarmos que nos tempos livres os seus membros desejassem apenas comer bem e dormir melhor. Mas, pelas mais variadas razões, as coisas na música portuguesa nunca são bem como as imaginamos.

No caso do Bernardo parecem por vezes transportadas para uma agenda hiper-realista em que sucessivamente se questiona a sua verosimilhança com a vida real. Porque se tivéssemos de lhe aplicar as regras que nos deixaram os nossos antepassados da indústria discográfica, 2010 teria sido o ano para promover e efectivamente rentabilizar o álbum “B Fachada” junto do – suspiro – ‘grande público’. Mas não estava escrito. Ao invés, seguiu-se outro caminho muito à custa da incessante actividade do próprio Fachada.

Em doze meses de esgotante exposição mediática (em que não passava uma semana sem aparecer numa publicação, numa rádio, num programa de televisão e disseminado por uma infinidade de sites e blogues), para além de tudo o que diz Diabo na Cruz encontramos: em Janeiro, um concerto numa leitaria, a apresentação no auditório do Montepio e a nomeação para Melhor Canção (‘Tempo para cantar’) no Prémio Autores 2010; em Fevereiro, a centésima Quinta de Leitura; em Março, concerto na ZDB e outro em Espinho; em Abril, uma sessão no Musicbox com Carminho e Pedro Abrunhosa e outra em Coimbra; em Maio, no Lux, a primeira parte de Vashti Bunyan seguida de dois concertos no Algarve e da gravação com Sérgio Godinho de um encontro para a Nokia; em Junho, espectáculo em Aveiro e ida para estúdio; em Julho, disponibilização para download gratuito (10.000 e a contar) do resultado, “Há Festa na Moradia”, que ganhou edição física em Agosto num vinil de 10” limitado a 500 exemplares; em Setembro, o lançamento da campanha Tradições Renovadas do azeite Gallo na qual recebeu carta branca para reinterpretar ‘Rama’, Tiago Pereira estreando o vídeo para ‘Joana Transmontana’ filmado in situ e “Há Festa na Moradia” cantado oficialmente numa concorrida festa de fim de Verão no Clube Ferroviário; em Outubro, um concerto na Sociedade de Geografia de Lisboa ao lado de Lula Pena e JP Simões e imediatamente a seguir o regresso a estúdio para a gravação de “B Fachada é Pra Meninos” ao mesmo tempo que se anunciava a sua participação no Super Bock em Stock com Sérgio Godinho como convidado especial. É obra. E como nascem canções assim no meio de uma agenda destas só ele saberá.

Ao que não será indiferente a contínua evocação daqueles versos de ‘Zappa Português’ – “vou ser bastante puritano/ pra quê? pra quê?/ para fazer dois discos por ano” – primeiro levados à letra, posteriormente encarados como um leviano capricho e agora tornados regra. Mas mesmo que chegue a altura em que saiba a pouco um Dezembro sem novo disco seu, por enquanto, porque há mesmo que aproveitar uma inspiração ilimitada, não há razões para ressacarem os que se habituaram à ideia. Após o virulento “Há Festa na Moradia” surge “B Fachada é Pra Meninos”, para nós, o mais coeso e distinto conjunto de canções que até hoje produziu.

Desde logo ao arriscar a conceptualização. Mas principalmente porque, aproximando-se do vasto e progressivamente difuso, frequentemente absurdo e ocasionalmente excêntrico universo infantojuvenil, não perde o rumo. Isto é, estas localizadas reflexões sobre a experiência de crescer têm origem nos mesmos impulsos que o conduziram até cada um dos seus discos, provando que consegue ser mais directo e simultaneamente irónico quando o assunto deriva de questões de moral. E, nem é preciso dizer, fugindo a sete pés da condescendência em que caem muitos dos que cantam para e sobre crianças. Porque, embora nem sempre pareça quando olhamos para os escaparates das secções nas lojas, há diferenças entre música infantil e música sobre a infância.

Este é igualmente um primeiro disco de banda. No que daria um trio de jazz ao jeito das lides nacionais, Bernardo (vozes, guitarras, teclas, percussão, etc), Martim (contrabaixo e baixo elétrico) e Mariana (duas baterias plásticas de bebé compradas numa loja de brinquedos) combinaram instrumentos que de certa maneira tornaram ainda mais harmoniosas canções que nasceram umbilicalmente ligadas umas às outras. A ideia de as miniaturizar veio enviesada de Pascal Comelade mas a inevitável expansão que sofreram evoca antes aqueles discos infantis de Toquinho e Vinicius que em mais do que uma ocasião Fachada citou em entrevistas (embora a sobreposição acústico/eléctrico, por exemplo, lembre, neste contexto, o Marcos Valle de “Vila Sésamo”). Seja como for, como em “Há Festa na Moradia”, prolonga-se aqui uma preocupação formal com o ‘som’, sendo o deste cristalino e directo onde era o do outro distorcido e processado. Dos discos brasileiros da infância veio também a ideia de convidar cantoras, numa escolha eminentemente biográfica: de outros tempos Francisca Cortesão, com quem partilhou campos de férias em menino, e de hoje Lula Pena, com quem pensa desenvolver mais parcerias.

“B Fachada é Pra Meninos” funciona também como uma metáfora. Em camadas de significados, manifesta uma contínua noção do seu autor face ao papel que tem desempenhado na recente produção local enquanto prolonga a ideia de que é tão possível dialogar com o que vem detrás quanto ignorá-lo. E, nessa perspectiva, não é inocente que ao estudo de páginas conhecidas do cancioneiro nacional-infante-o-trovadoresco tenha correspondido uma vontade de começar tudo de novo. De reeducar. Chamar as coisas pelos nomes e inverter valores dominantes de forma tão directa quanto: “Tó-Zé tu tem cuidado/ não sejas pau-mandado/ antes louco e malcriado que pensar só de emprestado/ toda a vida te vão dar o mundo mastigado/ tu começa a praticar para não ficares moralizado”; “assustaram-me com um velho e eu tento distinguir o bem do mal/ mas se a mãe é que decide sobre o meu comportamento que se lixe o pai natal”; “porque é que o bom é melhor que o mau?/ porque é que o mal é pior que o bem?/ porque é que é certo ser cara-de-pau mas está mal ser filho-da-mãe?”; “larga a sopa João/ não comas mais/ não dês ouvidos às mentiras dos teus pais”; “brincar/ fugir e desaparecer/ esquecer a escola e o dever/ fazer as coisas por prazer” ou “se a Manuela não puder deixar a mãe/ deixo eu a minha e parto sem ninguém”. É uma mini-revolução.

E é perversa a lírica de “B Fachada é Pra Meninos”. Pressupõe uma consciência sobre o que é ser criança que só negará quem nunca passou um dia trancado com alunos numa sala de aulas ou algo do género. Aqui são seres pensantes, actuantes, traficantes, o que se quiser. E falam na primeira pessoa. Sonham, aborrecem-se, morrem de amor a cada Agosto, sentem demais. Ao lidar com tão concreto material, Fachada acentuou uma dimensão onírica nos arranjos: há um exército de teclados de obtusa identificação convocado para o disco e um arsenal de inusitada percussão portátil que o pontua. Mas não ignorou totalmente a tradição, honrando-a com uma lengalenga – ‘Mochila do Carteiro’ – e uma semi-canção de embalar – ‘Barrigão’. E, como é hábito, há momentos – na letra de ‘Tó-Zé’ ou nas cinco notas finais de ‘A Casa do Manel’ casadas com as de ‘Tempo para Cantar’ – em que, afinal, tudo é sobre B Fachada.

Aliás, precisamente por se tratar de B Fachada, não será surpresa para ninguém que se revele maduro justamente ao apresentar canções para crianças. Logo no período de gestação se tornou óbvio que temas como ‘Primeiro Dia’, ‘Questões de Moral’ ou, mais uma vez, ‘A Casa do Manel’, indiciavam uma nova grandeza harmónica nas suas composições e que com ‘Agosto’ e ‘O Futuro’ arriscava um controlo mais adulto sobre os seus instintos rítmicos. Estas mudanças acompanham uma – à falta de melhor termo – atmosfera mais permeável ao registo confessional que muitas vezes se subentende nas suas crónicas de costumes mas que se revela aqui inesperadamente evidente.

A obra de B Fachada vive de todas estas leituras e, cada vez mais, de uma crítica que faltava à canção nacional, como força vital, natural e poderosa de comunicação. Que se pronuncie num estilo ainda mais mordaz e incisivo quando elege para parte do seu público-alvo os mais jovens só prova a sua pertinência.

sábado, 4 de dezembro de 2010

B Fachada com Sérgio Godinho no SBES

Por blitz, cotonete e iol há crónicas sobre o concerto de ontem.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Festival Super Bock em Stock



Sexta-Feira
B Fachada (com Sérgio Godinho como convidado especial)
Sala 1 do São Jorge 22h15

Sábado
Lula Pena
Restaurante Terraço do Hotel Tivoli 21h15

Marcos Valle
Sala 2 do São Jorge 23h30

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Melhores do Ano na BLITZ




A Blitz anunciou a sua lista de melhores álbuns do ano nacionais: "Tigrala" surge em 17º lugar, Lula Pena com "Troubadour" em 7º e B Fachada com "Há Festa na Moradia" em 4º. Aqui.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Gala Drop 'Drop' (Vídeo)

O vídeo é de António Contador.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Irakere no EXPRESSO

Ricardo Saló escreveu sobre este objecto da diáspora cubana há 30 anos perdido:

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Marcos Valle na TIME OUT LISBOA

João Miguel Tavares escreve sobre o melhor disco de Marcos Valle desde o seu regresso nos anos 90.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Gala Drop lançam 'Overcoat Heat' a 20 de Novembro




Será às 22h, no Espaço M (antiga Casa d’Os Dias da Água), em Lisboa.

Depois de no ano passado se terem apresentado no Anfiteatro ao Ar Livre da Gulbenkian, de terem embarcado numa tour europeia ao lado dos Six Organs of Admittance ou feito a primeira parte do concerto lisboeta de Sonic Youth, em Abril, os Gala Drop estiveram recentemente em Nova Iorque onde a convite de Panda Bear tocaram na Governors Island e ultimaram a edição do seu EP 12’’ pela Golf Channel Recordings. Este registo aprimora o lado mais dançável e celebratório da banda, introduzindo cada vez mais elementos de disco, house e melodias fortíssimas (de Cabo Verde a Chicago), sempre com o boogie como objectivo hipnótico eterno.

Podem ouvir aqui um dos temas do novo EP, ‘drop’.

Crítica no Resident Advisor por Philip Sherburne.

Referência no Gorilla Vs Bear por Chris Cantalini.

E podem ver aqui o vídeo com o famoso apagão no concerto com os Sonic Youth






Os Gala Drop, de Nelson Gomes, Tiago Miranda, Afonso Simões e Guilherme Gonçalves são quatro músicos, figuras e activistas de uma Lisboa que ainda está para ser seriamente entendida e analisada por quem anota a história. O seu disco de estreia homónimo de 2008 é já um clássico desta cidade difícil de entender à primeira (como sempre nos momentos de avanço). Obra perfeitamente acabada, pensada, maturada, ensaiada e laborada, reúne campos estéticos, rituais e práticas previamente longínquos entre si. Orquestras de sintetizadores, do krautrock e kosmische musik germânicos ao inferno de teclados dos franceses Heldon, do tribalismo percussivo da música psicadélica e de algum free a um conhecimento profundo de décadas de música de dança, das técnicas de processamento do dub jamaicano a uma sensibilidade extraordinária a recursos sonoros e mistura adicional (a cargo de Rafael Toral, também com créditos de masterização).

Mais informação aqui.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Tiago Guillul e Rui Reininho "Nabucodonosor" (vídeo)


Tiago Guillul com Rui Reininho 'Nabucodonosor' - Extraído de "V" (FlorCaveira, 2010) - Vídeo CentralMusical - Ateneu Comercial de Lisboa, 30 de Junho de 2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ricardo Rocha distinguido com o PRÉMIO CARLOS PAREDES

Ricardo Rocha, com "Luminismo", é o vencedor da edição de 2010 do Prémio Carlos Paredes. Aqui está o anúncio oficial da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira: "O júri do Prémio Carlos Paredes, organizado pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, decidiu distinguir, na edição 2010, o disco “Luminismo” de Ricardo Rocha. A cerimónia de entrega do Prémio está agendada para 29 de Outubro, 19h, no auditório do Museu do Neo–Realismo, em Vila Franca de Xira. De referir que esta iniciativa procura homenagear um dos maiores criadores e intérpretes musicais portugueses do século XX, reforçar a identidade cultural, assim como incentivar a criação e a difusão de música de qualidade, não erudita, de raiz popular portuguesa e executada por músicos nacionais".
Na Guitarra Portuguesa, Ricardo Rocha é um dos expoentes da sua geração. Gravou e tocou com Carlos do Carmo, Maria Ana Bobone, Camané, Vitorino ou Sérgio Godinho e surgiu, mais recentemente, em “Fado”, a estreia de Carminho. Mas a solo procura distanciar-se do contexto único em que a Guitarra Portuguesa se distingue, cruzando elementos do romantismo tardio, do impressionismo e do serialismo, e reivindicando como essencial para a renovação e futuro do instrumento o desenvolvimento de um repertório próprio e extrínseco ao fado.

Press Release de “Luminismo” aqui.
Biografia e fotos de Ricardo Rocha aqui.

B Fachada no SUPER BOCK EM STOCK

Dia 3 de Dezembro, na Sala 1 do Cinema São Jorge, com a participação especial de Sérgio Godinho.

Marcos Valle no SOM BRASIL

Marcos Valle recebeu convidados neste especial

e com Kassin, Monique Kessous e Domenico Lancellotti recuperou um dos seus clássicos de malhação da década de 80, 'Estrelar':

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Marcos Valle no EXPRESSO

Ricardo Saló saúda este "regresso em pico de forma", enunciando um "delírio melódico renascido das cinzas", a "sabedoria de pasmar na luxúria orquestral" e as "provas de um espírito psicadélico-libertário".