
"Joy Spring" está incluído nos dez melhores álbuns de 2010 no Jazz 6/4.

“Os Aquaparque têm origem em Santo Tirso, norte de Portugal. Pedro Magina (voz, casio tonebank, yamaha ds55, harmónica, percussão) e André Abel (voz, programações, guitarra) conheceram-se na primária no final da década de 80. Magina, com as suas botas ortopédicas, e André, com as suas camisas apertadas até ao pescoço, começaram a escrever música em conjunto pela altura que a “Antologia” dos Beatles passou na RTP2, já os dois andavam no ciclo. Magina era então um motivado atleta federado nos juvenis de futebol no Desportivo das Aves e André uma esquecível presença em peças de teatro amador. Tiveram as suas bandas com incautos adicionais, com estéticas comprometidas no seu diletantismo adolescente, de imersão metal gótico à la Lacrimosa dos parcos de técnica, à primeira vida dos dAnCE DAMage, inspirados pela recuperação do pós-punk do início do novo século. Ensaiaram uma vida inteira na sua amada e desdenhada cidade do Porto em espaços mitificados nos milieus das bandas emergentes do período, como o Poltergeist e o ‘Abílio’, no Bonfim, até salas DIY na Zona Industrial ou no Stop, e tocaram pelo país fora, de festivais ao ar livre dentro de muralhas em Miranda do Douro a garagens tornadas bares de alterne teen em Vieira do Minho. O pico deve ter sido no nunca-mais-será-como-antes Swing, no Porto. Precisaram deste tempo todo para escrever “Pintura Moderna” em algumas semanas.”.
Aquaparque
Numa certa perspectiva, “Pintura Moderna” funciona como uma terapia de estímulos sensoriais. Contém o balanço certo entre familiaridade e estranheza, seduz e desorienta, e traduz parte da cultura popular como um labirinto de espelhos. Tem tanto de aleatoriamente objectivo quanto de rigorosamente subjectivo. E, naquilo que de mais efémero simula, parece movido por um motor em contínua geração de sons saídos da pop de videoclip. Daquela que, formalmente instantânea, ganhou permanência na visão de certos produtores, na opção por determinados arranjos e, naturalmente, numa consistência rítmica, riqueza melódica e firmeza estética de alcance estrutural. Conduzem-nos até esta conclusão os seus momentos que, especulando, poderiam ter nascido em 80s, na alta costura sonora e combinação de estilo e substância de Stock, Aitken & Waterman, Trevor Horn, Jellybean Benitez, Bill Laswell ou Brian Eno atrás da mesa de mistura. Além daqueles nomes de cá que por altura do “É Isso Aí” (Aquaboogie, 2009), o seu primeiro disco, vieram à baila. Claro que concentrarmo-nos nisto facilita a compreensão mas encurta as vistas. Nenhuma destas canções começa e acaba num qualquer tráfico de influências. Quanto muito – nem tendo, de todo, de reconhecê-las conscientemente – tratam-nas de forma elíptica e reproduzem-lhes os códigos trocando-lhes a lógica. Porque não falaria “Pintura Moderna” a língua dos nossos dias se não expandisse violentamente as premissas tipológicas do qualquer género. Inscrevendo-se de forma exemplar na tradição dos que nesse contexto alteram paradigmas, concilia, ao nível dos processos, verosimilhança material com distanciamento da realidade, e manobra estrategicamente num jogo de sedução com a principal característica da pop de hoje: a simultânea afirmação e negação da própria vida de quem a ouve (e, quem sabe, da de quem a produz). E essa oscilação num mesmo espaço entre o eminentemente reconhecível e o profundamente abstracto – para que contribuirá também uma lírica idiomaticamente existencialista – produz apenas mais-valia estética quando inteiramente assumida. E é isso que fazem agora os Aquaparque. Situá-los numa produção nacional ainda mais fragmentada do que o que se supõe só interessa se for para compreendê-los tão confortavelmente à margem de tudo quanto no meio de todos. “Pintura Moderna” desentrincheira todas as ‘cenas’.
"São Valentim há-de valer pouco no calendário de um protestante mas como sou todo amor aproveito o dia para vos deixar uma oferta. Em Outubro entusiasmei-me a ouvir o "South Of Heaven" dos Slayer (um dos discos que eles menos gostam) e deu-me vontade de improvisar manhosamente sobre o talento deles. Tendo em conta que a banda sempre namorou um satanismo soft (mais feito de testosterona adolescente que anti-teologia séria) voltei a uma das velhas questões culturais cristãs do passado Século XX: why should the devil have all the good music? Assim sendo improvisei umas rimas semi-proselitistas sobre excertos das dez canções do disco. Tudo isto na minha confiável precariedade de meios técnicos. O resultado é este "Inverno Desinspirado do Rapaz do Sul do Céu (Uma pilhagem sonora em baixa-fidelidade com propósitos evangelísticos)" - podem sacá-lo aqui. Pedi ajuda ao Silas Ferreira que claramente me fez a capa do ano (aguardem pelas t-shirts em breve) e rematou os pormenores gráficos. É uma edição completamente artesanal (welcome back fotocópias a preto e branco, CD-Rs baratos, folhas dobradas e discos numerados pelo autor) limitada a 333 exemplares (com metade do número da besta conseguimos mais e melhor).


Nuno Catarino, na colaboração entre Christian Fennesz, David Daniell e Tony Buck, elogia uma “magnífica tensão, feita de contenção e controlo, rigor e disciplina, comunicação, criatividade imensa” e Paulo Cecílio diz-nos que em Pontiak “há riffs decentes, um baixo demolidor, e uma vontade em transcender o género musical a que se decidiu dar o bonito nome de stoner” .
Ali Farka Touré & Toumani Diabaté “Ali and Toumani” (World Circuit)
Atomic “Theather Tilters Vol. 1” (Jazzland)
Best Coast “Crazy For You” (Mexican Summer)
Bola Johnson “Man No Die” (Vampisoul)
Bonnie 'Prince' Billy & The Cairo Gang “The Wonder Show of the World” (Drag City)
D.O. Misiani and Shirati Jazz “The King of History: Classic 1970s Benga Beats From Kenya” (Sterns)
Emeralds “Does it Look Like I’m Here?” (Mego)
Issa Juma and Super Wanyika Stars “World Defeats the Grandfathers: Swinging Swahili Rumba 1982-1986” (Sterns)
Jean-Marc Foltz, Matt Turner & Bill Carrothers “To the Moon” (Ayler)
Jeb Bishop Trio “2009” (Better Animal)
Jim O’Rourke “All Kinds of People ~ Love Burt Bacharach” (AWDR/LR2)
Jon Irabagon “Foxy” (Hot Cup)
Julian Lynch “Mare” (Old English Spelling Bee)
Konono Nº1 “Assume Crash Position – Congotronics 4” (Crammed)
Lobi Traoré “Rainy Season Blues” (Glitterhouse)
M. Takara 3 “Sobre Todas e Qualquer Coisa” (Desmonta)
Marcelo Jeneci “Feito Pra Acabar” (Slap)
Nate Wooley & Paul Lytton “Creak Above 33” (Psi)
Oneohtrix Point Never “Returnal” (Mego)
Psychedelic Aliens “Psycho African Beat” (Academy LPs)
Ray Anderson-Marty Ehrlich Quartet “Hear You Say” (Intuition)
Rodrigo Amado, Taylor Ho Bynum, John Hébert & Gerald Cleaver “Searching for Adam” (Not Two)
Schlippenbach Trio “Bauhaus Dessau” (Intakt)
Sun Araw “On Patrol” (Not Not Fun)
Tabu Ley Rochereau “The Voice of Lightness Vol. 2: Congo Classics 1977-1993” (Sterns)
Tomas Fujiwara & Taylor Ho Bynum “Stepwise” (Not Two)
Wadada Leo Smith & Ed Blackwell “The Blue Mountain’s Sun Drummer” (Kabell)
Wilson das Neves “Pra Gente Fazer Mais Um Samba” (Totolo)
Vários “Lagos Disco Inferno” (Academy LPs)
Vários “To Scratch Your Heart: Early Recordings from Istanbul” (Honest Jon’s)
(João Santos)
Ariel Pink's Haunted Graffiti “Before Today” (4AD)
Beach House “Teen Dream” (Sub Pop)
Best Coast “Crazy For You” (Mexican Summer)
Bonnie Prince Billy & The Cairo Gang “The Wonder Show Of The World” (Drag City)
Doug Paisley “Constant Companion” (No Quarter)
Geri Allen “Flying Toward The Sound” (Motéma)
Jim O’Rourke “All Kinds of People ~ Love Burt Bacharach” (AWDR/LR2)
Joanna Newsom “Have One on Me” (Drag City)
Konono Nº1 “Assume Crash Position – Congotronics 4” (Crammed)
Marilyn Crispell & David Rothenberg “One Dark Night I Left My Silent House” (ECM)
Richard Hawley “True Love’s Gutter” (Mute)
Vijay Iver “Solo” (Act)
+
Bruce Springsteen “The Promise: The Darkness on the Edge of Town Story” (Columbia)
Bob Dylan “The Original Mono Recordings” (Sony)
(Rui Ribeiral)
Curren$y “Pilot Talk” (DD172)
The Roots “How I Got Over” (Def Jam)
Erykah Badu “New Amerykah Part Two (Return of the Ankh)” (Motown)
Kanye West “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” (Roc-A-Fella)
The Vandermark 5 Special Edition “The Horse Jumps & The Ship Is Gone” (Not Two)
Big Boi “Sir Lucious Left Foot the Son of Chico Dusty” (Purple Ribbon)
Flying Lotus “Cosmogramma” (Warp)
Ariel Pink Haunted Graffiti “Before Today” (4AD)
Jason Moran “Ten” (Blue Note)
Aloe Blacc “Good Things” (Stones Throw)
Emeralds “Does it Look Like I’m Here?” (Mego)
Sade “Soldier of Love” (Sony)
Gonjasufi “A Sufi and a Killer” (Warp)
Janelle Monáe “The ArchAndroid” (Bad Boy)
Kid Cudi “Man on the Moon II: The Legend of Mr. Rager” (Motown)
Nas & Damian Marley “Distant Relatives” (Def Jam)
Jim O’Rourke “All Kinds of People ~ Love Burt Bacharach” (AWDR/LR2)
Best Coast “Crazy For You” (Mexican Summer)
Sleight Bells “Treats” (Mom + Pop)
Rick Ross “Teflon Don” (Def Jam)
Mark Ronson & The Business INTL “Record Collection” (RCA)
Ingebrigt Håker Flaten/Joe McPhee “Blue Chicago Blues” (Not Two)
Rah Digga “Classic” (Raw Koncept)
Curren$y “Pilot Talk 2” (DD172)
Freeway and Jake One “The Stimulus Package” (Rhymesayers)
(Sérgio Gonçalves)
No artigo "Os melhores da cultura em 2010" fala-se sobre “um álbum centrado na infância, sem perder pitada da inteligência e densidade lírica e emocional (…) concretizado com uma minúcia e um bom-gosto extremosos. De infantil não tem nada. Este B Fachada É pra Meninos é de certeza o melhor disco português do ano".

As ilustrações de "B Fachada é Pra Meninos" são de José Louro. Umas palavras sobre o autor:
Em certa medida, 2010 foi o ano do grupo em que toca B Fachada, os Diabo na Cruz. Num surpreendente somatório de 40 concertos calcorrearam o país queimando fitas, lançando foguetes, recebendo caloiros e emigrantes, levando alegria a muitas praças, encharcando auditórios, ultrapassando em larga escala qualquer rider artístico que à sua frente se atravessasse e, como no IST, incentivando ao motim da praxe. Seria o suficiente para imaginarmos que nos tempos livres os seus membros desejassem apenas comer bem e dormir melhor. Mas, pelas mais variadas razões, as coisas na música portuguesa nunca são bem como as imaginamos.


Miguel Arsénio conclui que “nada impede os Barn Owl de se transformarem num caso sério assim que aprenderem a dominar o buraco negro”. 
Ricardo Rocha, com "Luminismo", é o vencedor da edição de 2010 do Prémio Carlos Paredes. Aqui está o anúncio oficial da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira: "O júri do Prémio Carlos Paredes, organizado pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, decidiu distinguir, na edição 2010, o disco “Luminismo” de Ricardo Rocha. A cerimónia de entrega do Prémio está agendada para 29 de Outubro, 19h, no auditório do Museu do Neo–Realismo, em Vila Franca de Xira. De referir que esta iniciativa procura homenagear um dos maiores criadores e intérpretes musicais portugueses do século XX, reforçar a identidade cultural, assim como incentivar a criação e a difusão de música de qualidade, não erudita, de raiz popular portuguesa e executada por músicos nacionais".
Na Guitarra Portuguesa, Ricardo Rocha é um dos expoentes da sua geração. Gravou e tocou com Carlos do Carmo, Maria Ana Bobone, Camané, Vitorino ou Sérgio Godinho e surgiu, mais recentemente, em “Fado”, a estreia de Carminho. Mas a solo procura distanciar-se do contexto único em que a Guitarra Portuguesa se distingue, cruzando elementos do romantismo tardio, do impressionismo e do serialismo, e reivindicando como essencial para a renovação e futuro do instrumento o desenvolvimento de um repertório próprio e extrínseco ao fado.