segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Kimo Ameba "Rocket Soda"
Os Kimo – que começaram ainda no secundário rodeados de várias espécies de retardados que iam à escola pela proximidade do ABS – aprenderam a esconder a mágoa em infinitas jams de ruídos cor-de-rosa. E fazem barulho suficiente para que nem com o volume no mínimo escape alguma da estridência da sua música. Mais do que um imaginário de reacção, revelam um mundo – onde cabe toda a Fetra – de recorrente insanidade, em que até uma taça inundada de leite e cereais é um agente psicotrópico.
O Leio andava lá no liceu com o J Mascis, o Sushi é um ganda nérd que converte batidas em rojões, o Nacho diz que a sua cena é os 90s mas ouve Prince às escondidas e o Chico provou a si mesmo que podia ser mais do que o gajo do sofá nos ensaios! “Rocket Soda” é o seu álbum de estreia: 12 singles e 1 b-side após 3 anos a fazer música.
Aproveitaram o facto do Rô (produtor) estar de férias para gravar o disco e isso é giro porque eles sabiam que ele não tinha licença para o fazer – o Dudu (produtor executivo e boss do Pony) estava no Butão durante as gravações e só o ouviu depois, enquanto o masterizava. E está muita bem gravado. Apesar de toda a distorção, compressão e de estar tudo em mono, é um álbum hi-fi que faz questão de ter o lo-fi presente em todas as faixas. As pistas gravadas não foram pós-produzidas, têm espirais e pedais dos nineties e ascendem com tons de azul e laranja. O Nacho gravou todas as vozes à primeira enquanto o Sushi demorou três dias a gravar todas as baterias.
Aproveitaram o facto do Rô (produtor) estar de férias para gravar o disco e isso é giro porque eles sabiam que ele não tinha licença para o fazer – o Dudu (produtor executivo e boss do Pony) estava no Butão durante as gravações e só o ouviu depois, enquanto o masterizava. E está muita bem gravado. Apesar de toda a distorção, compressão e de estar tudo em mono, é um álbum hi-fi que faz questão de ter o lo-fi presente em todas as faixas. As pistas gravadas não foram pós-produzidas, têm espirais e pedais dos nineties e ascendem com tons de azul e laranja. O Nacho gravou todas as vozes à primeira enquanto o Sushi demorou três dias a gravar todas as baterias.
O que se passa em "Rocket Soda" não é barulho – ou pelo menos não é só barulho. É barulho pop, em que, para que ecoem para sempre na cabeça dos recém-surdos, as canções estão programadas para entrar no ouvido segundos antes de gerarem uma acentuada perda de audição (real objectivo do álbum). ‘Brad Foh da Corners’, tema inaugural, é disso mesmo exemplo: o jogo de guitarras e baixo é básico, mas nunca é ingénuo; a bateria explode-lhe por cima e a voz está onde deve estar, ao lado dos outros instrumentos. Parece que não se percebe nada mas percebe-se tudo.
A fórmula repete-se (quase) sem variações, mas nunca deixa de ser inventada a cada tema. É assumida, estranhíssima, mas soa sempre simples e eficaz. Não esquecendo um elemento importantíssimo: o solo. Aplicado aqui como uma negação do fade out, obriga cada canção a renascer e a questionar os seus limites. É tudo sempre a abrir e é cantado em inglês e português – mas isso não interessa porque letras são para ninos. Se fosse realmente importante dir-se-ia que se tratam só de canções sobre ‘Lagos’, o Moustache do Abras ou ser muita gay.
Mas nem só de fórmulas vive “Rocket Soda”, ou não fosse pensar-se que os Kimo são bons alunos. Via Jay Reatard, Dinosaur Jr, My Bloody Valentine ou através dos colegas da Fetra, que de professores não têm nada, a escola do rock ensinou-lhes uma série de truques que ‘Kids Are Daficient’ põe em causa. À praxeologia dos 2 minutos são acrescentados outros 6 e o quase punk do costume é trocado pelo primeiro tema a que historicamente podemos chamar "prog-Fetra". Os solos não querem parar e é por isso que não param (por isso, e por cada um ser ainda melhor do que o anterior), a voz tem qualquer coisa de espectral, a bateria, pela sua intensidade cósmica e cadência, deixa dúvidas quanto ao facto de estar a ser tocada por um ser humano, e a parede de som está lá – talvez não como o Phil Spector a idealizou, mas mais através das camadas de distorção. ‘Beaver’ e ‘Fetra’ também funcionam como fugas ao paradigma. No caso, através da inclusão de caixa de ritmos – uma transformação ainda maior se tivermos em conta que a estrutura das canções se mantém aproximada à das anteriores (ainda que a "Fetra" seja um instrumental de hinólogo).
No fundo, aqui como em toda a Cafetra, podemos entender que a simplicidade não vem da incapacidade dos executantes, mas de uma forma de problematizar a necessidade de uma técnica exagerada tendo em conta a facilidade real da execução de canções. E, mais importante, é um disco feito por amigos, piratas e homosecs. O programa é esse.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Agenda
Sábado, Passos em Volta + Kimo Ameba às 23h na ZDBDomingo, B Fachada às 17h na PT Bluestation da estação de Metro Baixa-Chiado, inserido numa amorosa programação que dura até ao dia de São Valentim
Quarta-Feira, Norberto Lobo & João Lobo às 22h no Maria Matos.
Não há como usar a desculpa do frio.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
B Fachada com concerto-surpresa em Lisboa
Numa acção que decorre até ao dia de São Valentim, a PTbluestation da estação de Metro Baixa-Chiado celebra o amor. Domingo, dia 12, às 17h (cheguem mais cedo, por favor!), nada mais apropriado, então, do que a presença do mais poliamoroso escritor de canções da sua geração. A entrada é gratuita!
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Carmen Souza Duo feat. Theo Pas’cal “London Acoustic Set” (informação adicional)
Data de lançamento: 2 de MarçoConcertos de apresentação em Portugal (a Carmen é agenciada pela Quarta Perfeita):
2 de Março, Santo André (Auditório da Escola Secundária)
3 de Março, Almada (Auditório Fernando Lopes Graça)
9 de Março, Lisboa (Teatro do Bairro)
10 de Março, Alcobaça (Cine-teatro João D'Oliva Monteiro)
Toda a informação sobre o duo está aqui e sobre a Carmen em particular, aqui.
Podem consultar o seu acervo de vídeos aqui e siga-la no facebook aqui.
Carmen Souza Duo feat. Theo Pas’cal “London Acoustic Set” (texto de apresentação)
"Carmen Souza sings in her native creole dialect with an intimacy, sensuality, and vivacity, characterised by a tremendous lightness of touch. Her music has a deceptive simplicity, a rare clarity, derived from a unique mix of influences from her Cape Verdean background to jazz and modern soul creating this beautifully vibrant, largely acoustic, accessible hybrid. World soul music for the 21st century" David SylvianAos poucos – e de forma determinante desde que reside em Londres – Carmen Souza tem-se afirmado globalmente como um dos mais intransigentes e vibrantes símbolos da lusofonia. E no sentido em que a entidade cultural lusófona é intrinsecamente mutante e em constante expansão mas eminentemente inclusiva, é apenas natural que assim seja. Porque se a acção desta lisboeta (nascida em 1981) parte de um signo matricial enraizado na tradição das ilhas de Cabo Verde (a origem da sua família), é pelas encruzilhadas próprias da diáspora que vai construindo um ecléctico programa artístico. Faz todo o sentido que a Mbari, de Norberto Lobo ou Lula Pena, a si se associe.
O tratamento essencialmente plástico que confere aos materiais à sua disposição – e o carácter quase expressionista da sua voz, nesse particular, assume-se tanto um ponto de partida quanto de chegada – sublinha simultaneamente as elásticas afinidades estéticas transatlânticas e o inédito ponto de sincretismo a que chegou. Música afro-cubana, jazz, morna e um conjunto de referências nascidas já de décadas de fusões rítmicas são deglutidas, distendidas e infinitamente recicladas no desenvolvimento de um extático perfil autoral para o qual, ao longo da última década, tem contribuído decisivamente o compositor e baixista Theo Pas’Cal.
Este “London Acoustic Set”, após três álbuns em conjunto – “Ess ê nha Cabo Verde” (2005), “Verdade” (2008) e “Protegid” (2010) – gravados em pontos distintos do globo, e envolvendo dezenas de instrumentistas, e depois de apresentações pelo mundo fora (Portugal, Cabo Verde, Reino Unido, Turquia, Brasil, Alemanha, Holanda, Irlanda, Finlândia, Letónia, Itália, Canadá e uma digressão de 14 datas pelos EUA), marca o regresso de Carmen e Theo numa crua, imperturbável e indissolúvel demonstração de como o radicalismo da sua proposta jamais lhe compromete a íntima beleza e a exuberante comunicabilidade.
O gesto do duo Carmen Souza feat. Theo Pas’Cal é o de depurar e recompor os temas a partir da sua dimensão formal mais indispensável, colocando em evidência as suas qualidades basilares. E depois há, claro, a evocação de uma série de referências – costumam-se apontar os nomes de Nina Simone, Ella Fitzgerald, Maria João, Billie Holiday, Joe Zawinul, Édith Piaf (lembrada aqui em ‘Sous le Ciel de Paris’) Return to Forever, Horace Silver (a este histórico pianista de jazz norte-americano, outro descendente de cabo-verdianos, é dedicada a versão do seu imortal ‘Song for my Father’) ou, claro, Cesária Évora – que servem também para avaliar a originalidade do que aqui se ouve.
Gravado quase na íntegra no londrino Green Note (dois temas provêm de um concerto no Liverpool Philharmonic Hall), é uma enérgica e concentrada demonstração de mais-valia criativa com um derradeiro sinal de humildade e generosidade: 50% do valor das suas vendas destina-se ao apoio de importantes iniciativas de intervenção e transformação social – SOS Children’s Villages, Infância sem Racismo, da Unicef e Casa ser Criança, da Abraço, associação que celebra este ano o seu 20º aniversário.
Kimo Ameba 'Lagos City' (Vídeo)
Tema de "Rocket Soda", o álbum que Sábado tem festa de lançamento na Zé dos Bois.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Norberto Lobo & João Lobo 'Bragança'
Um dos temas que o Norberto e o João têm trabalhado, 'Bragança', provavelmente noutra forma, será incluído em "Mogul de Jade", o álbum em duo que contamos editar até ao fim do trimestre. Esta versão serve para antecipar os concertos dos dois no Teatro Maria Matos, em Lisboa, no dia 15, e no Centro cultural Vila Flor, em Guimarães, no dia 18.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
B Fachada na VICE
Escreve Miguel Arsénio “Mas lançar um disco por cada Verão e Inverno, alternando entre conceitos e manifestos bem distintos (da música infantil à política), parece muito mais um acumular de transgressões do que uma forma segura de gerir a carreira. Embora nenhuma mudança tenha sido violenta ao ponto de o deixar irreconhecível, B Fachada renovou-se a cada seis meses e foi assim que cavou o contraste face a quem, neste país, não mexe uma palha (estética) em seis anos. Não admira, portanto, que cada novo disco venha acompanhado por testemunhos que o colocam num patamar à parte do seu tempo”.terça-feira, 24 de janeiro de 2012
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
B Fachada no PONTO FINAL
sábado, 7 de janeiro de 2012
Pega Monstro no EXPRESSO
Num artigo sobre "apostas" nas artes para 2012, a música ficou por conta das Pega Monstro. Conclui Rui Tentúgal que "coitados dos festivais de verão que não tiverem Pega Monstro".
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Norberto Lobo "Fala Mansa" nas listas de Melhores do Ano
Será porventura, e em termos metacríticos, o disco do ano. E não deixa de impressionar que uma proposta processualmente tão simples mas de tão distinta e complexa natureza tenha ganho tal grau de aclamação. Porque, ainda que a designação se revele inconvenientemente restritiva, não se levará a mal quem descreva "Fala Mansa" como um disco instrumental de um solista esteticamente tão errático quão focado na exploração de um original discurso de progressiva desvinculação formal. Isto é, nada daquilo de que se faz o top ou sequer uma aproximação ao que convive tranquilamente com a imprensa generalista e com o grande público. E, no entanto, nada impediu que este terceiro álbum do Norberto tranquilamente se afirmasse como o pacificador para o qual confluiram múltiplas tendências e visões. É um motivo de redobrado orgulho e, necessariamente, uma razão para nos mostrarmos agradecidos...
à Blitzao Bodyspace
ao Expresso
ao Jornal de Letras
ao Propagandista Social
ao Público
ao Sapo Música
à Time Out Lisboa
à Trompa
à Vodafone FM
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
sábado, 31 de dezembro de 2011
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Norberto Lobo no EXPRESSO (Melhores do Ano)
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
domingo, 11 de dezembro de 2011
B Fachada 'Tó-Zé' [vídeo oficial]
tó-zé, b fachada from manuela pacheco on Vimeo.
'Tó-Zé' é uma das canções de "B Fachada é Pra Meninos"
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
B Fachada no SOUND--VISION
Escreve Nuno Galopim: “Mais melancólico nas formas (e a voz do piano não será estranha a esta característica), “B Fachada” é mais um volume a reter numa obra em construção que, como poucas no actual panorama da música popular portuguesa, continua, apesar do ritmo invulgarmente insistente de edições, a mostrar-nos discos que sabem sempre acrescentar algo aos que o precederam. Uma vez mais B Fachada justifica o estatuto que lhe foi confiado”.
B Fachada no PÚBLICO
Escreve João Bonifácio: “Valha a verdade, e ao contrário da imagem de desafinado com coração que passam dele, Fachada é antes de mais um gélido ás da melodia, que sabe sempre como resgatar uma canção à banalidade. Tudo isto está presente em "B Fachada", uma espécie de "Rock Bottom" ao contrário: onde Wyatt se afundava em água, "B Fachada" é um vir à tona”.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
terça-feira, 29 de novembro de 2011
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Agustí Fernández no BODYSPACE

Escreve Nuno Catarino: “Neste disco Agustí Fernández desenvolve uma música baseada em motivos (subconscientemente?) interiorizados, que são laboriosamente transformados em matéria nova. Desvinculando-se das suas típicas estratégias oblíquas e alta intensidade, o catalão opta por uma suave linearidade, assumindo um discurso sólido, ancorado numa permanente subtileza, contenção e controlo”.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Agustí Fernández "El laberint de la memòria" (another couple of impressive reviews)

On Free Jazz, Stef writes “It is romantic and lyrical, but because he refrains from adding too much context or excessive ornaments, the overall sound results in one of sober warmth. Beautiful” and on Gapplegate Music Review, Grego Applegate Edwards says that “It gives you a front row seat for an impressively, eclectically inventive piano recital”.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Jorge Cruz no i
Num excerto da entrevista de Maria Ramos Silva, Jorge Cruz diz: “Até aos 8, 9 anos, apaixonei-me pela música, foi o boom da MTV. Não que a tivéssemos, mas víamos os telediscos pela primeira vez nos programas do Álvaro Costa. Foi a primeira vez que vi o Boy George. Saiu o disco do Mick Jagger, o “Purple Rain” do Prince. Era um mundo mágico. Quando fui para Angola não tinha nada. Estava já motivado e não tinha acesso".
O que se ouvia lá?
"Na rádio ouvia-se os Kassav, os Tubarões, um bocadinho de Lionel Richie e Michael Jackson. Era música dançável, de farra. Tinhas o recolher obrigatório. Quando a malta ia para casa de alguém numa festa dessas tinha que lá ficar até de manhã. Nós miúdos ficávamos a dançar e adormecíamos lá num canto. Então a minha avó mandava as TV Guia para a minha mãe, uma vez por mês, e aquilo tinha o top disco. Foi aí que comecei a fazer canções. Só conhecia os títulos e então inventava as melodias".
O que se ouvia lá?
"Na rádio ouvia-se os Kassav, os Tubarões, um bocadinho de Lionel Richie e Michael Jackson. Era música dançável, de farra. Tinhas o recolher obrigatório. Quando a malta ia para casa de alguém numa festa dessas tinha que lá ficar até de manhã. Nós miúdos ficávamos a dançar e adormecíamos lá num canto. Então a minha avó mandava as TV Guia para a minha mãe, uma vez por mês, e aquilo tinha o top disco. Foi aí que comecei a fazer canções. Só conhecia os títulos e então inventava as melodias".
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
B Fachada "B Fachada" (Texto de Apresentação)
Nas lojas a 2 de Dezembro
Concerto de lançamento em Lisboa:
Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, no dia 21 de Dezembro, pelas 21h00. Bilhetes já à venda!
Outras datas:
3 Dezembro – Teatro Viriato, Viseu (2 concertos com banda: às 16h00, para crianças, apresentação de "B Fachada é Pra Meninos"; às 21h30, concert para o público geral)
6 e 7 de Dezembro - Culturgest, Porto (dois concertos em piano solo)
9 Dezembro – Café-Concerto do Centro Cultural Vila Flor (solo, apresentação de "B Fachada")
Sob o pretexto de gerir expectativas de confessionalismo nas suas letras, B Fachada transforma com frequência biografia em alegoria. E essa acaba por ser uma recorrente linha de força nos textos em que apresentamos os seus discos. E sublinhamos habitualmente aqueles momentos em que B Fachada, mais do que compositor e intérprete, é antes, como tantas outras, uma personagem com vida independente dentro das (suas) canções. A administração deste dispositivo, mais do que sarcástica, revela essencialmente uma estratégia que enfatiza uma das problemáticas da música popular e emprega o paradoxo enquanto veículo para a desconstrução – ou, no mínimo, exposição – das convenções que lhe estão associadas. É, também, embora longe de única, uma forma peculiar de comunicar ideias àqueles que o ouvem. Porque o equilíbrio entre o real e o fictício, ao longo destes quatro anos em que o Bernardo se impôs como um caso à parte no meio artístico português, transformou-se num traço de identidade tão celebrado quanto os seus recursos estilísticos. A opção de não nomear o seu quarto álbum – ou, como no disco de Dezembro de 2009, permitir-lhe novamente a designação de “B Fachada” – é, como se costuma dizer, uma espécie de enigma dentro de outro.
E, no entanto, se podemos afirmar que este “B Fachada” é, à primeira vista, o que se presta claramente a uma leitura autobiográfica, a verdade é que se dá mais o caso de nele encontrarmos a personagem em busca do seu autor. Isto é, aparentemente, tratar-se-ia de tentar desvendar o mistério da criação e da origem – ou de lhe encontrar sentido – numa visita guiada pelo mais privilegiado dos intermediários. Por isso logo se poderia concluir que, ainda mais do que no passado, tudo aqui seria sobre Fachada. Mas o facto é que a audição destas canções desmente a asserção. Porque, como tantas vezes se provou, há momentos em que o artista olha para dentro apenas para encontrar o outro. Assim – embora, como sempre, possam estas canções ganhar vida e razão longe desta ideia –, a menor das ilusões em torno deste “B Fachada” é a de que, mais do que método, inspiração ou moral, lhe interessa falar sobre a sua musa. Talvez por isso soe tão humilde, ainda que nada comprometa em termos de arrojo estético: porque será evidente que aplica aqui inusitadas soluções formais e dá uso a técnicas que contrariam a actual agenda da produção discográfica, e, mais uma vez, ninguém poderá negar a crescente maturidade com que lida com os materiais à sua disposição. Mas, com a naturalidade daqueles que nada têm a provar, a transparência com que apresenta num mesmo plano a arte, o objecto e o meio dá livre acesso a um ideário que noutros momentos traduziu em parábola e que agora aparenta partilhar em discurso directo.
Nessa perspectiva, não se pense que abandona o assunto que mais se discutiu por alturas de “Deus, Pátria e Família”. Pelo contrário, aprofunda-o. Porque tal como o narrador desse tema de 20 minutos, também aqui se encontra no pessoal, e não no colectivo, o cenário para a mais política das transformações: a do indivíduo. Aquele que – descodificando imagem pública – em ‘Roupa de Estrada’ canta “Quem me deu as mentiras para ser eu/ Vou tentando ser decente/ Num Fachada bem diferente do meu” ou em ‘Não Pratico Habilidades’ diz “Podes fazer o que quiseres/ Eu deixo gozar comigo por não ser cantor” para acrescentar “Canto a minha pirosada/ Para te chegar ao calcanhar”. Aliás, muito deste disco é, em última análise, uma reflexão sobre o juízo e a crítica, permeável à opinião alheia e capaz de responder com clareza a apreciações favoráveis ou desfavoráveis. É só mais uma camada de significados para esse diálogo cantar em ‘Sozinho no Róque’ que está “Mais a rimar, nem tanto a ser poeta/ A dominar a música discreta” ou, de novo em ‘Roupa de Estrada’, fazer referência ao seu ciclo semestral de edições e à própria natureza deste novo CD com a frase “Nunca um tema foi eterno/ Tudo volta a ser moderno/ Ponho aquele meu tom mais terno/ Nasce um disco, amor, para ouvires no teu inverno”.
Depois há, com a ligeireza e acessibilidade de sempre, vinhetas da vida privada, como o “Ponho as gotas no cabelo/ E uma reza eficaz” de ‘Cantar o Apelo’, o “Tu trabalhas junto a mim até te dar o sono/ Eu só durmo quando enfim a cantiga já tem dono” de ‘Os 2 no Polibã’ ou o “Vens ouvi-lo a dizer coisas/ Que dão a entender/ Que isto assim contigo é que é viver” de ‘Barriga pelo Amigo’. E, inevitavelmente, a menção a um ambiente musical em que se percebem umas coisas enquanto outras permanecem duvidosas, desta feita sintetizada num ‘Está na Hora da Passa’ em que se afirma que “Quando o dia desenlaça/ Está na hora da passa/ Fica tudo com mais graça/ Excepto a prenda de Alcobaça” e se dedica estes versos aos meninos e meninas da Cafetra que, em estúdio, marcaram com palmas o ritmo: “Fazem mal a coisa certa/ Há que ouvir o tio careca/ Porque a barba mal desperta/ É preciso andar para a Fetra”. Mas é quando cai o pano sobre o disco que mais ele se revela, com a dedicatória de ‘Mané-Mané’ (“Já não basta todo o dia a levar com a guitarrada/ Vai, faz um disco só sobre ti”) e, escondido em fundo tropical, o conselho “Quando acaba a cantoria/ Parece fácil, é magia/ Mas não basta uma certa piada/ Para ser o B Fachada// Tentas muito compreender/ O que acabou de acontecer/ Se ainda assim eu não consigo te agradar, então/ Usa a vida para viver/ Usa a vida para viver/ Usa a vida para viver/ Usa a vida para viver”.
Como é costume, nada é bem o que parece. E, mais uma vez, sem poder ter outra origem, soa diferente um disco novo de B Fachada em que permanece a ambição de explorar os limites da sua linguagem. Num universo autoral progressivamente mais distinto, ensaia – numa monumental balada, num solene refrão, num inusitado solo de guitarra, num obtuso efeito no piano, numa captação vocal inédita, em mil e uma vozes, num estranho interlúdio instrumental, numa citação de um tema de Norberto Lobo que lança para o cosmos – algo de semelhante ao que fez em “B Fachada é Pra Meninos”: quanto mais joga com arquétipos, maior a sua recusa do normativo.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Jorge Cruz "Barra 90" (Apresentação)
Praia da Barra (99)Acho que esta canção foi feita propositadamente para as gravações caseiras d’“o pequeno aquiles”, em 99. Tinha um Fostex de quatro pistas no quarto de hóspedes da casa dos meus avós, que nessa altura se encontrava à venda. A casa ao lado, dos meus pais, onde cresci, tinha sido vendida um ou dois anos antes. Ali a 100 metros, junto à ria, havia um pontão para os barcos pequenos atracarem onde era costume ir sentar-me durante o ano, quando tudo estava silencioso, ou no Verão, para fugir ao rebuliço dos banhistas. O local parecia reter a simplicidade de uma infância desaparecida. A família saiu em definitivo da Barra no fim dos anos 90.
Um de Nós (96)
Esta foi a primeira canção minha que ouvi passar na rádio. Tinha feito os envios do disco de estreia dos Superego (“Quem Concebeu o Mundo Não Lia Romances”, 98) e pus-me a ouvir o “100%”. O Henrique Amaro abriu o programa com este tema. Não foi uma boa sensação – tudo estava demasiado exposto. Eu não soava como os cantores das outras bandas nem nós tocávamos ou gravávamos bem as nossas músicas como as outras bandas. Ainda assim, a canção sobreviveu. Para este “Barra 90” decidi brincar com ela tratando-a como uma malha à Timbaland em honra da pop para massas que me fez inicialmente apaixonar pelo mundo das canções.
Tornados (98)
Esta canção de dois acordes na sua versão original (gravada para “o pequeno aquiles”) procurava juntar referências da altura: os Palace de “Arise Therefore”, Smog e Red House Painters. Dedilhava-a muito lentamente e quase nem parecia ali haver música. De certo modo, acho que a canção que existia por trás daquelas notas esparsas seria algo próximo do que aqui gravámos. Sendo que na verdade só soou a música a sério quando pusemos o estúdio às escuras e a Márcia cantou baixinho.
Entre Iguais (93)
Quando comecei a escrever canções procurava temas mais genéricos do que os que viria a utilizar mais tarde. Não conhecia canções sobre amor homossexual e escrevi esta inspirando-me num amigo gay da minha irmã que era daqueles fãs de Madonna que iam a Paris ou a Madrid na tour do “Erotica” e dormiam na rua junto aos hotéis onde ela ficava. Numa fase anirvanada dos Superego tocávamo-la em locais hostis e eu e o baixista dávamos um beijo na boca – o público ficava enraivecido. Com esse historial de provocação era a canção certa para o Fachada. Ele tocou em todas as músicas deste disco e fez um brilhante trabalho de co-produção, mas só podia cantar aqui.
Filipa, NY/T-Shirt (95)
‘T-shirt’ foi uma espécie de epifania no repertório de Superego. Como é que seria possível falar do mundo a partir de um quarto fechado? Esta canção parecia responder à questão. Quase tudo nesta altura era uma espécie de adiamento do mundo, de fechamento, de agorafobia. O maior contraste em relação a esse sentimento era a vida da minha irmã, que acabara de partir para Nova Iorque com o sonho de se tornar uma actriz famosa. Um dia recebi pelo correio uma cassete que ela me tinha gravado com os sons à sua volta. Nesta nova versão decidi usá-los, juntando ao quarto fechado da ‘T-shirt’ o restaurante português em Manhattan onde ela trabalhava, e a sábia Luzia, que lhe explicava o que era preciso para se ser alguém ali.
36 (94)
Quando estava a decidir que canções regravar para este disco fui ouvir cassetes antigas, de ensaios, maquetas e ideias dispersas, e encontrei esta, de que me tinha já esquecido. O que me interessou nesta música com um estranho título foi ter existência prévia à minha primeira audição de Will Oldham e da sua maneira única de escarrapachar em canções histórias perversas e misteriosas que não se chegavam bem a entender. Lembro-me de na altura me identificar em imediato com esse universo. Não foi preciso imitá-lo – há algum tempo que as coisas me estavam a sair de maneira algo semelhante.
Exausto (97)
Esta era mais uma daquelas canções de Superego que não cabia na nossa indecisão entre sermos uma banda de rock emocional, de funk à “In Sound From Way Out” (Beastie Boys) ou de trad-roque. Obviamente foi parar a “o pequeno aquiles” mas não perdeu o seu marco no discurso daquele tempo. Aqui foi salva por uma bateria do David Pires que ao apontar para Tom Waits acertou no Peter Gabriel circa “So”. Quanto aos coros à Annie Lennox, peço desculpa, mas não consegui resistir.
Roupas - parte 1 (97)
‘Roupas’ é uma sequela de ‘Exausto’ – a melodia é a mesma. Esta, sim, foi usada para fechar o primeiro disco de Superego. Juntei-lhe “parte 1” porque a SPA não aceitou o título, que já existia. E assim tornou-se numa prequela de ‘Roupas (parte 2)’, que fecha o meu primeiro disco a solo, “Sede”, de 2004. O feedback que se lhe segue podia ser o único som de toda esta viagem ao passado. Numa canção do “Love & Theft” [‘Summer Days’] alguém diz à personagem principal “You can’t repeat the past”, e a voz do Dylan responde: “You can’t? What do you mean you can´t? Of course you can”. Mas não sem a sensação de estar a repisar um longo e tortuoso caminho.
Lugar Privado (98)
Esta foi sempre a minha canção preferida de Superego. Na versão original havia um solo de guitarra eléctrica que tentava imitar o Mark Kozelek a imitar o Neil Young. Aqui a magia é toda do Fachada. Eu limitei-me a fazer de claque e a juntar um feedbackzinho no fim.
Esta foi a primeira canção minha que ouvi passar na rádio. Tinha feito os envios do disco de estreia dos Superego (“Quem Concebeu o Mundo Não Lia Romances”, 98) e pus-me a ouvir o “100%”. O Henrique Amaro abriu o programa com este tema. Não foi uma boa sensação – tudo estava demasiado exposto. Eu não soava como os cantores das outras bandas nem nós tocávamos ou gravávamos bem as nossas músicas como as outras bandas. Ainda assim, a canção sobreviveu. Para este “Barra 90” decidi brincar com ela tratando-a como uma malha à Timbaland em honra da pop para massas que me fez inicialmente apaixonar pelo mundo das canções.
Tornados (98)
Esta canção de dois acordes na sua versão original (gravada para “o pequeno aquiles”) procurava juntar referências da altura: os Palace de “Arise Therefore”, Smog e Red House Painters. Dedilhava-a muito lentamente e quase nem parecia ali haver música. De certo modo, acho que a canção que existia por trás daquelas notas esparsas seria algo próximo do que aqui gravámos. Sendo que na verdade só soou a música a sério quando pusemos o estúdio às escuras e a Márcia cantou baixinho.
Entre Iguais (93)
Quando comecei a escrever canções procurava temas mais genéricos do que os que viria a utilizar mais tarde. Não conhecia canções sobre amor homossexual e escrevi esta inspirando-me num amigo gay da minha irmã que era daqueles fãs de Madonna que iam a Paris ou a Madrid na tour do “Erotica” e dormiam na rua junto aos hotéis onde ela ficava. Numa fase anirvanada dos Superego tocávamo-la em locais hostis e eu e o baixista dávamos um beijo na boca – o público ficava enraivecido. Com esse historial de provocação era a canção certa para o Fachada. Ele tocou em todas as músicas deste disco e fez um brilhante trabalho de co-produção, mas só podia cantar aqui.
Filipa, NY/T-Shirt (95)
‘T-shirt’ foi uma espécie de epifania no repertório de Superego. Como é que seria possível falar do mundo a partir de um quarto fechado? Esta canção parecia responder à questão. Quase tudo nesta altura era uma espécie de adiamento do mundo, de fechamento, de agorafobia. O maior contraste em relação a esse sentimento era a vida da minha irmã, que acabara de partir para Nova Iorque com o sonho de se tornar uma actriz famosa. Um dia recebi pelo correio uma cassete que ela me tinha gravado com os sons à sua volta. Nesta nova versão decidi usá-los, juntando ao quarto fechado da ‘T-shirt’ o restaurante português em Manhattan onde ela trabalhava, e a sábia Luzia, que lhe explicava o que era preciso para se ser alguém ali.
36 (94)
Quando estava a decidir que canções regravar para este disco fui ouvir cassetes antigas, de ensaios, maquetas e ideias dispersas, e encontrei esta, de que me tinha já esquecido. O que me interessou nesta música com um estranho título foi ter existência prévia à minha primeira audição de Will Oldham e da sua maneira única de escarrapachar em canções histórias perversas e misteriosas que não se chegavam bem a entender. Lembro-me de na altura me identificar em imediato com esse universo. Não foi preciso imitá-lo – há algum tempo que as coisas me estavam a sair de maneira algo semelhante.
Exausto (97)
Esta era mais uma daquelas canções de Superego que não cabia na nossa indecisão entre sermos uma banda de rock emocional, de funk à “In Sound From Way Out” (Beastie Boys) ou de trad-roque. Obviamente foi parar a “o pequeno aquiles” mas não perdeu o seu marco no discurso daquele tempo. Aqui foi salva por uma bateria do David Pires que ao apontar para Tom Waits acertou no Peter Gabriel circa “So”. Quanto aos coros à Annie Lennox, peço desculpa, mas não consegui resistir.
Roupas - parte 1 (97)
‘Roupas’ é uma sequela de ‘Exausto’ – a melodia é a mesma. Esta, sim, foi usada para fechar o primeiro disco de Superego. Juntei-lhe “parte 1” porque a SPA não aceitou o título, que já existia. E assim tornou-se numa prequela de ‘Roupas (parte 2)’, que fecha o meu primeiro disco a solo, “Sede”, de 2004. O feedback que se lhe segue podia ser o único som de toda esta viagem ao passado. Numa canção do “Love & Theft” [‘Summer Days’] alguém diz à personagem principal “You can’t repeat the past”, e a voz do Dylan responde: “You can’t? What do you mean you can´t? Of course you can”. Mas não sem a sensação de estar a repisar um longo e tortuoso caminho.
Lugar Privado (98)
Esta foi sempre a minha canção preferida de Superego. Na versão original havia um solo de guitarra eléctrica que tentava imitar o Mark Kozelek a imitar o Neil Young. Aqui a magia é toda do Fachada. Eu limitei-me a fazer de claque e a juntar um feedbackzinho no fim.
Jorge Cruz, Outubro de 2011
Nota biográfica:
Jorge Cruz começou a compor em 1990. Nascido em 1975, viveu até aos 10 anos na Praia da Barra, Aveiro. No ano de 1985 mudou-se para o Lobito, Angola, onde fez o primeiro ano do ciclo preparatório. Regressou a Aveiro no ano seguinte. Entre 1989 e 1991 viveu em Almada. Regressou à Praia da Barra onde viveu até 1998, altura em que se mudou para o Porto. Em 2006 passou a viver em Lisboa. Com os Superego editou “Quem Concebeu o Mundo Não Lia Romances” (1998) e “A Lenda da Irresponsabilidade do Poeta” (2001). Em 1999 editou um disco gravado em 4 pistas sob o nome de “o pequeno aquiles”. A solo editou “Sede” (2004) e “Poeira” (2007) de onde se retiraram singles que ganharam popularidade como “Adriana”, “Fado de Uma Rua Qualquer”, “Nada” ou “Anda Menina”. Em 2008 fundou os Diabo na Cruz e um ano mais tarde a banda estreou-se com “Virou!”. O disco foi considerado um marco na música nacional pela forma como integrou sonoridades de música tradicional e de rock contemporâneo. Desde então o grupo tem-se destacado pelos concertos explosivos, perto de 100 por todo o país no espaço de dois anos. Produziu discos dos Golpes, dos Pontos Negros e de João Só e os Abandonados. Co-produziu discos de B Fachada e de João Coração. Participou em discos de More República Masónica, de Tiago Guillul e de Samuel Úria. Escreveu letras para discos de Movimento e Amor Electro. Ultimamente tem-se dedicado exclusivamente à composição para o segundo disco de Diabo na Cruz.
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