terça-feira, 9 de outubro de 2012

Norberto Lobo "Mel Azul" (MBARI 16)



“Mel Azul”, depois de “Pata Lenta” (2009) e “Fala Mansa” (2011), é o terceiro álbum do Norberto para a Mbari. E, desconhecendo o futuro (acção que neste tempo de tantos augúrios, de tão rara, parece ter-se elevado a arte), foi apenas com a sua chegada que despontou uma ideia de trilogia jamais planeada (embora, à cautela, aqui devêssemos utilizar a palavra tríptico). Porque de facto, numa impressão reforçada por uma certa coerência gráfica e visual no objecto (crucialmente, mas não só, através da reprodução nas suas capas de quadros do pintor Michael Biberstein), não trai uma organização muito lógica esta aparentemente clássica disposição – embora, reforçamos, de todo premeditada – que parte a princípio da solitária guitarra acústica, dela um pouco se distancia (com a chegada de voz, tambura, piano e demais teclados em overdub no CD do ano passado) e em última instância a ela torna (apesar de no tema titular vir acompanhada por Sei Miguel).

Claro que aos olhos de quem, do Norberto, conhece apenas estes discos e está atento a um discreto discurso que nunca sugeriu uma precedência do compositor face ao intérprete, se revelará absurda uma introdução formal nestes termos: afinal, não nasce tudo da guitarra? A resposta a esta questão – ou a impossibilidade de o fazer em termos absolutos – comprova também a singularidade de um percurso que se revela, normalmente em palco e fruto de frequentes colaborações, muito mais abrangente do que à primeira vista parece. Pois nessas apresentações se diluem fronteiras e hierarquias – entre géneros, egos, instrumentos e ideologias – e se reforça a impressão de que, senão em duas frentes, a música do Norberto se faz, pelo menos, em duas velocidades: uma, mais imediata, reactiva e instável, manifesta-se habitualmente ao vivo, em duos e variadíssimas formações (com bateristas, saxofonistas, pianistas, etc); outra, mais durável, reflectida e constante, regista-se, por exemplo, neste trio de discos.

Não havendo uma prevalência de um modelo sobre outro (mais depressa se falará na velha ideia de dualidade expressa pela gasta expressão dos “dois lados da mesma moeda”), será importante ter consciência da correlação de forças entre si, e, naturalmente, de que nem isso terá grande permanência numa compreensão mais vasta desta produção. Da mesma maneira, será inevitável falar do passado (e daquelas sessões com Devendra Banhart, Naná Vasconcelos ou Larkin Grimm) e, no máximo, supor que a partir de anteriores experiências algo agora se projectou. Porque parte das canções que o Norberto reúne em “Mel Azul” nasce dessa combinação de efeitos de acumulação e magnetismo. De uma incessante prática e de uma forma concentrada de constituir num organismo vivo os materiais melódicos, harmónicos ou técnicos previamente ensaiados, mas também as pessoas e os lugares. Nessa perspectiva, este novo álbum, ficamos com essa impressão, afigura-se como a mais elementar tradução de um tempo e um espaço específicos realizada pelo Norberto desde a sua estreia com “Mudar de Bina” (2007).

“Mel Azul”, como o que lhe antecedeu, tem tanto de culto quanto de oculto. Após um “Fala Mansa” em que esteve só, Norberto regressa a interpretações (de dois temas do seu irmão, Manuel, que todos conhecem de meia dúzia de filmes, certamente do “Tabu”, e de que só alguns terão ouvido a obra enquanto Garcia da Selva ou REC brutus, um dueto com Marco Franco) e colaborações (desta feita com Sei Miguel, com quem partilha maturados interesses). Traz, por isso, música sobre música, sobre gente e sítios. E, mais uma vez, aprofunda um fraseado independente de constrangimentos formais que, só por prazer, assume momentâneas estruturas canónicas. Numa arquitectura progressivamente mais leve, com um sentido de tempo que nem se dá por ele, tecendo uma malha transparente em que se inscreve o silêncio, o humor e hipnóticos padrões que jamais soam forçados, esta música insólita parece-nos próxima por tão familiar nos ser já o seu criador. Mas é muito feita de inquietações só suas. E avança por caminhos que, sem ela, dificilmente estaríamos a trilhar. É que, ao contrário do que é comummente promulgado, nada disto alguma vez aconteceu e dificilmente tornará a acontecer.


Norberto Lobo, guitarra
Sei Miguel, pocket trumpet em “Mel Azul (Moebius)”

Canções por Norberto Lobo excepto “Enzo Fought Back” (Manuel Lobo) e “Lisboa Ginásio” (Manuel Lobo & Norberto Lobo)
Gravado, misturado e masterizado no Golden Pony Studio (Lisboa) por Eduardo Vinhas e Pedro Magalhães
Design por Mackintóxico  Capa por Michael Biberstein, “Target”, 2011

Enzo Fought Back
Lúcia Lima
Vudu Xaile
Valsa da Greve Geral
Rustenburger Str
A Cor do Demo
Rua da Palma Blues
Golden Pony Blues
Lisboa Ginásio
Maga Raga
Mel Azul (Moebius)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

sábado, 15 de setembro de 2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

B Fachada no MADE IN PORTUGAL



Made In Portugal: O seu último trabalho tem tido criticas muito positivas. Considera que foi até ao momento o seu melhor trabalho musical?
B. F.: Gosto sempre do último disco com mais força, mas com o tempo todos os albuns vão permanecendo em cantos especiais da minha memória: tenho uma relação com os discos que não é a de um ouvinte; posso ficar para sempre apaixonado por um disco simplesmente por ter recordações fortes das gravações ou da composição.

Made In Portugal: Apesar de dar concertos ao vivo, é o próprio a dizer que não gosta muito, sendo exigente com o público. Defina, aquele que seria o seu concerto perfeito.
B. F.: Um público mínimo preparado para a imperfeição máxima. E no fim um grande banquete impróprio para a saúde.

Made In Portugal: Recentemente, em entrevista à 'Time Out' revelou que se vai afastar da música durante um ano, referindo que gostaria de surgir com banda e outro nome; "uma cena unificadora, para passar em todas as rádios". Pensa investir noutro registo musical?
B. F.: O meu trabalho até aqui tem sido muito programático. Queria trabalhar o suficiente durante estes primeiros anos para ter a certeza que desenvolvia a técnica sem me encher de vícios: variar bastante, aprender o trabalho no estúdio, descobrir a minha língua, etc. Agora que tenho todas essas ferramentas mais oleadas, seria um desperdício não tentar alcançar uma outra profundidade com elas; descansar um ano e depois atacar mesmo a sério.

Made In Portugal: Na sua opinião, o que considera, que faz falta à música em Portugal e/ou às rádios nacionais para passarem mais variedade de música?
B. F.: Faz falta diversidade. Fazem falta mais pronúncias bem cantadas, mais palavras, mais bandas (diferentes umas das outras!) e muito mais canções
[excerto da entrevista].

terça-feira, 28 de agosto de 2012

B Fachada no ALEGORIA DA PRIMAVERVE



BF - Obrigo-me a ser o mais polivalente possível neste aspecto; quando estou a fazer uma canção por um processo que nunca usei fico mais confiante de que o resultado vai ser diferente do que eu já fiz antes. Às vezes começa pela letra, outras pela música, outras ao mesmo tempo, pelo início, pelo meio, pelo fim, já houve canções que começaram por ser uma ideia de forma, outras uma ideia de conteúdo, outras sem ideia nenhuma.
TZ -Tem um disco seu preferido ou responderá que a todos ama da mesma forma, como filhos?
BF - De uma maneira geral, gosto sempre mais do último que fiz, mas há discos pelos quais tenho mais carinho que outros, mas claro que isso tem mais a ver com razões pessoais que musicais.
TZ - Gostava de saber quais são os músicos que mais admira. Três, ou quatro. E, se não coincidirem, dois ou três cantores.
BF - É difícil escolher assim no geral, mas se tentar concentrar-me na música em português posso dizer que o Zeca e o Alfredo Marceneiro em Portugal e o João Gilberto e o Caetano no Brasil são os quatro pontos cardeais do meu "manual da língua cantada".
TZ - Para além de influências puramente musicais, de que outras impressões estéticas, em geral, e artísticas, em particular, retira inspiração para compor?
BF - Principalmente da literatura. É fácil aprender com os grandes clássicos: são as melhores lições de forma, língua, narração e narrador.
TZ - A arte tem propósito ou é despropositada por natureza?
BF - A arte não tem propósito. Começa e acaba em si: a leitura é que tem propósito. Apesar disso, não considero a música pop uma arte, mas sim uma espécie de artesanato e esse já tem um propósito: representar um espaço e um tempo (da humanidade) muito curtos e com uma grande intensidade. Para que possa ser absorvido por inteiro e ser substituído facilmente pelas gerações seguintes”
[excerto da entrevista].

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

B Fachada "Criôlo" (Texto de Apresentação)

Foi preciso esperar até 2009 para se identificar mais objectivamente a crioulização em B Fachada: primeiro no reggae ‘Kit de Prestidigitação’, com que fechava o seu álbum homónimo, e, determinantemente, no akizombado ‘Monogamia’, a sua contribuição para a compilação “Novos Talentos”, da Fnac. Depois, no Verão de 2010, surgia em “Há Festa na Moradia” um ‘Joana Transmontana’ a equilibrar toada ultramontana com uma batida relaxada extraída ao semba. Mas, mais do que numa justaposição elementar, todo esse EP reflectia uma certa noção de amálgama miscigenada no âmago do seu material, para não falar já, em termos mais gerais, no seu método.

“B Fachada é Pra Meninos”, o CD de 2010, embora num escopo muito específico, abria com um ‘Tó-Zé’ a evocar padrões rítmicos afrobrasileiros e confirmava a predisposição espiritualmente tropicalista na abordagem de tradições alóctones que, no Verão do mesmo ano, “Deus, Pátria e Família” confirmou em pleno, com a sua cadência caribenha temperada por sintetizadores sacados ao livro de estilo de bandas congolesas. A leitura parecerá apócrifa, certamente. E muitos mais casos na sua extensa discografia apontam em direcção contrária. Mas servirá para transmitir esta ideia de que – em pensamento – havia já na produção de B Fachada um ideário crioulo antes de um álbum chamado “Criôlo”.

Esse – do inventivo balanço de ‘Afro-Xula’ (que, em tese, pega numa síncope angolana para marcar uma toada da chula, a dança do Alto Douro que marcou a música nordestina brasileira, a que, por isso mesmo, se contrapõe um acordeão a evocar forró) ao dub de ‘Quem Quer Fumar com o B Fachada’ (que saúda um Lee Perry que, basta ouvir ‘I Am the Upsetter’, não era estranho ao malhão) – torna agora explícito um certo interesse por aquilo que, para descrever influências latino-americanas no flamenco, por exemplo, os espanhóis chamam de canções de “ida y vuelta”. Mas, numa triangulação entre Portugal, Brasil e África Lusófona, não interessando a ordem de partida, “Criôlo” não deixa de ser também um disco sobre essas relações e a ausência dessas relações ao longo dos anos. Utilizando quase exclusivamente sons fora de moda, ou pelo menos dessintonizados com o presente, o disco especula sobre uma crónica dificuldade na generalidade da música popular portuguesa em assimilar organicamente e generosamente, que não em regime de anedotário ou mimese, a música do atlântico sul (mesmo se de semelhante processo floresceu toda a mais significativa produção do século passado: tango, fado, samba, blues, rumba, jazz, r&b, afrobeat, etc).

Simulando arranjos que em tempos serviram a mais genérica música de massas, Fachada sugere ainda a possibilidade da música popular não ter de depender exclusivamente da sobrevalorizada expressão de autor (num país onde por vezes parecem só haver casos e não movimentos). Mas, embora paradoxal, é também sintomático que o sublinhar dessas diferenças entre o popular e o tradicional, o individual e o colectivo, o rural e o urbano, etc, reafirme a sua própria assinatura individual. A um CD de terminar o plano de edições em vigor desde 2009, com referências ao 25 de Abril ou às possibilidades sinecuristas no exercício do poder misturadas com vinhetas do quotidiano, não sabemos se faz pensar, mas dançar, sim, com certeza.

B Fachada no SOL