sexta-feira, 24 de outubro de 2008

João Coração Nº1. Sessão de Cezimbra


"Quando entrei na sala, o Samuel Úria, alto e elegante, segurava a Stratocaster. O Tiago Guillul debruçava o seu tacto subtil sobre as teclas do Rhodes. O Coração sentou-se em frente ao microfone central, pegou na viola e cantou a primeira canção. Era uma das 32 que tinha para nos mostrar. Chamava-se "À Volta Do Rio". Abria assim a sessão de Sesimbra. Por ali passariam o Bernardo Barata dos Feromona, o Lipe dos Pontos Negros, o Guell dos Ninivitas, o Alexandre Mano dos Superego, o José Castro e o Tomás d’Os Quais. Apenas uma coisa se manteria estável. A promessa, em cada canção, de uma nova realidade".
Trecho retirado do texto “A Sessão de Sesimbra”, por Jorge Cruz

"A música do João Coração vai atrás da voz. Quem o acompanha instrumentalmente sabe que, acima de tocar, cabe-lhe ouvir. Nessa medida, falamos de escutar sopros, algo convenientemente bíblico. A música do Coração parece meiga mas impõe-se. Não sei se o pouco que dormimos, o mal que comemos mal (o Coração é vegetariano) e o mar que não experimentámos serão perceptíveis ao ouvinte. Sei que esta voz delicada me arrancou à força o décimo quinto disco da FlorCaveira".
Trecho retirado da apresentação de Tiago Guillul

Este primeiro disco de João Coração é o segundo disco da FlorCaveira a chegar às lojas. Pouco terá de Teologia e ainda menos de Panque-Roque (e só confirma o que alguns já sabiam: que a editora de Tiago Guillul nunca se esgotaria nesses preceitos do seu mentor). Este conjunto de 13 canções nasceu numa série bem maior, de 50. Corresponderá, porventura, ao abraçar de uma nova disciplina por parte de um criador com ligações prévias a outras formas de arte. E sobre as pontes entre umas e outras só o próprio poderá falar.

Ainda assim, este primeiro disco de João Coração quase não existia. Foi gravado há um ano (em universo acústico gerado por Jorge Cruz, Tiago Guillul e Samuel Úria, entre outros) e viveu desde então como um rumor. Nessa medida, como qualquer memória, deixou-se conquistar pelo tempo (e é quase insuportavelmente poético que termine, a cappella, por entre os silvos do vento). Mas as ideias felizes têm tendência a não se deixar vencer e há as que levam bem mais que doze meses até amadurecer tão bem.
Ao contrário da norma, não se discutirão aqui filiações estéticas e soluções formais. Parece-me mais relevante sublinhar o facto de estarmos a lidar com um conjunto de canções (vá lá, de estrutura pouco convencional) que surge instantaneamente seduzido pela voz de quem as canta. O que nem sempre é o caso. (A sua fluidez permanece irresolúvel; a gestão do tempo, as pausas e o ocasional refrão, tudo respira e conversa. Mas só na aparência estas melodias são acidentais). E se fará igualmente sentido relembrar a Canção enquanto organismo vivo, convirá não ignorar que a sua elasticidade não lhes retira temperamento. João Coração é habitado por isto mas disto tudo é cortesão. Por isso, também não valerá a pena escrutinar influências.

Como em tantos primeiros discos, suspendem-se os sonhos de criança e revelam-se os medos do homem – cada canção é um sacrifício. Mas não me parece que Coração receie que o mundo desapareça enquanto fecha os olhos – conhece bem a geografia que o encerra. As canções pintam paisagens, mas não as inventam. E levam o cantor desde terras pestíferas até ao abraçar da luz do sol. Nestes contos morais, esse é um quente conforto que só experimenta o senhor que não é senhor de si próprio. Agora chegou a hora de partir. E nem mesmo o acaso deveria ser deixado à sua sorte.